Raquel Stolf – Assonâncias de Silêncios

8 Posted by - 29/06/2015 - #6, ano 2, henrique iwao

  • Sobre o álbum Assonâncias de Silêncio (volume 0, 2007-2010), de Raquel Stolf.

     

    1. – O silêncio pode ser o fundo do ruído? – Mas não há silêncio matriz.  – Só que isso não impede de pensarmos o silêncio como um a priori da escuta. – Para o ouvido, entretanto, não existe silêncio.

    2. Percepções de silêncio: “aqui está silencioso”. Silencioso como? Se ouvir mais fosse romper o silêncio, a resposta seria algo como “antes, era o silêncio com motor de frigobar, mas agora, presto atenção e então escuto som de motor de frigobar, sem silêncio”. Daí uma diferença importante entre o microfone que capta e a escuta, porque depois do ouvido e suas transduções, o ato cognitivo direciona, filtra, foca. Já o microfone, por falta de inteligência, nota tudo.

    3. Mas o silêncio não é um pedido para a não-escuta (ou pelo menos, não aqui). Não é um silenciar a escuta, como suprimir a visão, usando um óculos escuro branco. Talvez um pouco como silenciar o mundo, mas certamente não como caminhar com abafadores de ruído nas orelhas.

    4. Em um volume normal, não consigo escutar muitas faixas. Isto é, seus silêncios, mais quietos, são mascarados pelos sons ambientes. Em uma escuta assim em casa, ouço muita coisa, todas elas de fora do CD: uma voz mecânica e grave, como de um carro de polícia que pede “aos cidadãos de bem que voltem às suas casas”, mas dizendo “saco de mexericas por cinco reais” e “dúzias de ovos” alguma coisa; o toque de telefone de um vizinho distante; alguns carros (parecidos com 19, 23, 25, 32, 44) e uma buzina breve (36); o gato invasor que mia “mau” e não “mel”, como minha gata Mel; minha geladeira ligando e o consequente drone agudo (bem diferente de 10); eu próprio teclando para descrever os sons que ouço (em 33 esse som reaparece); alguns cachorros latindo (21 e 26). Penso na terrível vizinha que não faz outra coisa se não gritar – preciso escrever uma carta para ela e sua filha Nicole, “a retardada” (palavras da mãe). Os resfriadores barulhentos do meu MAC estão à toda, e nem está quente – são contínuos demais para soarem como os grilos de 41, e ruidosos demais para soarem como o eletrônico de 14. Um leve vento e uma surpreendente mosca, quase como em 28, e me lembrando o álbum colaborativo de Radu Malfatti, One Man and a Fly. Um plástico estalando devido à mudança de temperatura (na faixa 40, algo estala também).

    5. Penso nessa situação curiosa, mas que poderia ser perfeitamente normal: para ouvir o CD, preparar um ambiente de quietude: fechar portas e janelas, tirar geladeira da tomada, desligar telefone, desligar estabilizador.

    6. Ouvindo de novo, será que aumento o volume? E se ouvir alto, o quanto tudo não se mostra extremamente fragmentado? Primeiro, os clicks eventuais em começos e finais de faixa; os esbarrões e falta de perspectiva em algumas gravações: certamente são marcas que sinalizam: cotidiano, trabalho não especializado – uma certa fortuidade, um gosto pelo que aparenta espontaneidade. Seria tudo isso um diário? Entre as faixas, silêncios digitais, sem espaço (e dentro delas, nas faixas com falhas – 45 a 47): é como ficar sem respirar, entre respirações preocupadas em não soar. Isto é, há interrupções radicais. E também: as mudanças das texturas de fundo ficam bastante acentuadas, mas não duram o suficiente para se estabelecer, nem tampouco são curtas o suficiente para se encadearem (como eu mesmo tentei fazer na minha obra “Silenci”, onde trechos de músicas de Varèse percebidos como silêncios são normalizados e justapostos). Enfim, é preciso muita concentração. Uma coleção que talvez diga – é preciso evocar x, evocar y, mas não há tanto tempo (rápido!); como alguém que às vezes diz: acalme!, e agora acalme daquele outro jeito.

    7. Talvez seja melhor colocar o fone, e ajustar o volume para o mais baixo possível. Digo melhor, mas é como: de outra maneira – uma transformação do álbum. Deve-se escutá-lo no mínimo 3 vezes, eu diria. Mas hoje, tinnitus do brabo.

    lenços

    8. Sutrações-decalagens: abaixar algum som até sua energia perder-se em quietude e, por fim – silêncio, ou ainda mais: zero.

    9. Segundo Craig Dworkin, em No Medium, Jens Brand realizou uma gravação de campo do som de um deserto de Botsuana, lugar quase vazio e quase realmente silencioso, e utilizou esta na instalação Stille-Landschaft (2002). A menos que você esteja numa câmera anecóica…

    10. 13 e o som de trovões à distância. Uma atmosfera de atenção e espera invade a sala. É  breve. 20 e 35 algo range. Como gosto de rangidos, não poderia considerar isso como silêncio. Sempre que ouço rangidos, penso: “música acontecendo”. Um vento muito bom, alguém a andar. Carros passam. Quero ler com isso, mas dura pouco demais para ler. O jeito é escutar a próxima. 48 e 49 falam sobre aparência. De cima, não entender que há ruído em baixo. Fundo do mar, fundo de rio. – Está tão quieto aqui na superfície. – Mas e as correntes subterrâneas?

    11. O silêncio como o branco e não o transparente. Uma lista de coisas brancas. A relação com o papel. Diz ela: “gosto quando escuto a escrita”. John Cage anota notas em cima das imperfeições do papel em branco (música para carrilhão, música para piano 1-85, etc).

    12. Mas o que são esses silêncios? Se são sensações, eles incluem sons. Se são um sentimento, posso coletar os sons dos momentos em que o senti. Num contexto barulhento e frenético talvez o bem maior seja o silêncio. Solidão e silêncio para propiciar algo a dizer. Mas talvez o “a dizer” sejam esses próprios momentos. Eu estava nesse momento e gostaria de dizer “eu estava nele” (sem que), e estava nele, e estava nele etc.

    13. Como diz Ulisses, em Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres, de Clarice Linspector: “Há um grande silêncio dentro de mim. E esse silêncio tem sido a fonte de minhas palavras. E do silêncio tem vindo o que é mais precioso que tudo: o próprio silêncio.”

    camadas

    14. E se o silêncio for um convite para escutar mais? Certamente, se nos mantemos em silêncio, durante um evento sonoro, escutamos melhor – não somos a outra fonte sonora, causa de distração própria. Salomé Voegelin escreve sobre isso no capítulo When there is nothing to hear you start hearing things do seu livro Listening to Noise and Silence.

    15. Diferentes silêncios, diferenças no e dentro do silêncio. Sons infra-sutis, quase-imperceptíveis (vamos escutar bem baixinho, e aí corrigir, como a errata pede, o volume de 48, 49 e 50, abaixando-os mais). Ou ainda mais uma diferença conceitual: o silêncio como pausa: o silêncio do vento, quando este não venta. O ar (tranquilo); a mesa (não estala nem range); a geladeira (sem drone). Escuto não-ouvir vento, mesa, geladeira.

    16. Colando e parafraseando: “Baixar o volume do mundo. Baixar o volume da boca. (…) Talvez seja preciso baixar o volume de sentido da escuta. Propor ao outro a falta de sentido. Ouvir com os ouvidos bem fechados. Dificuldade e limite de audição. Propor isso. E nessa dificuldade, propor diferenças – eis o irrepetível – de uma gravação a outra, de uma execução de gravação a outra – na escuta, no seu esforço, mas também no seu entorno. Assonâncias: repetições de micro-variações, o que pulsa entre um silêncio e outro, o que insiste. Um quebra cabeça branco com 1000 peças.”

    17. Stolf cita Comte-Sponvile para falar do silêncio como ausência de sentido: “é o outro nome do real”.

     

    18. Em uma das escutas, depois de 49 silêncios empilhados, criando silêncios do tipo mascaramento-silenciar uns aos outros, de sopetão, o aparelho de CD (estou usando um que tenho, bonitinho, com duas caixas de sonoridade agradável e tamanho médio, retangulares na frente, com gabinete de madeira preto, com falhas premeditadamente rústicas na pintura, esbranquiçadas, como listras) produz seu característico “toque de recolher”. Imediatamente, som da tubulação do banheiro, indo e vindo.

    Henrique Iwao

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