Mash ups, simbiose como composição?

3 Posted by - 29/06/2015 - #6, ano 2, alessa

  • Recentemente tive a oportunidade de trabalhar com um procedimento muito recorrente dos dias atuais, o mash up. Eu e meu amigo e parceiro musical, Cauê Benetti, tivemos que compor 3 trilhas utilizando os mash ups no tema “bailes” para uma exposição de fotos. As trilhas tinham uma abordagem histórica e geográfica. A primeira dedicava-se a bailes rurais, a segunda a bailes do começo da metrópole, mais ou menos entre os anos 30 e 60, e a última era mais contemporânea e dedicava-se aos processos de globalização cultural.

    Proveniente da cultura do remix, o mash up é uma técnica na qual se reaproveitam materiais sonoros, geralmente de música pop, recombinando-os numa nova estrutura. Pega-se a base de uma música para acompanhar a melodia de outra e num processo de colagem obtém-se uma nova coisa, mas que em si não é coisa alguma. Os mash ups viraram moda na internet. Geeks de áudio e fanáticos pelo tema postam videos no youtube de suas obras, e a prática se estende não só para o som, mas para os video-clips. As colagens são das mais diversas, de coletâneas de vários hits até a sobreposição de artistas, as batalhas, Fulano vs. Siclano. O mash up mostra dados interessantes sobre o processo de composição de música pop nos dias de hoje, os quais me dedicarei a comentar na medida do possível.

    Abaixo exemplos de mash ups:

    Existe na cultura de mash up, assim como na prática de dj, um grande trabalho de pesquisa em música. Isso se dá não só pelo fato de ser um estudo do gênero pesquisado, mas também pelo dado que o dj é um colecionador de loops. Ao tentar conectá-los, nem sempre o loop escolhido dará conta do recado, mesmo que o dj o processe digitalmente, o material original é muito importante, e processamento não faz milagre. Portanto sua amostragem tem que ser bem alta.

    Outro fato digno de nota tem a ver com o andamento das músicas. Enquanto trabalhávamos nas trilhas, pude constatar que alguns gêneros possuem praticamente o mesmo andamento, o funk carioca por exemplo gira em torno dos 130 bpm. Os calypsos empolgantes de hoje, também todos a quase 130 bpms. Porém isso muda durante o tempo e os funks dos anos 80, mais melódicos, estão em torno dos 100 bpms. O carimbó paraense e o brega, também dos anos 80, 76 bpms. Pode até ser um “padrão” da indústria, mas isso se explica facilmente uma vez que estas músicas, projetadas para fazer dançar o baile, são pilotadas por djs. E, nesta função, a sincronicidade do tempo é essencial.

    Também podemos ver o quanto o mash up desmascara uma questão harmônica muito presente na música pop de rádio. As cadências harmonicas são muito próximas, o que cria a sensação de que, em uma hora de músicas tocando no rádio, ouvimos uma hora inteira da mesma música. Na guerra do dial, a similaridade prevalece. O rock também não escapa disso. Tem riff de guitarra? Então existe uma grande possibilidade da música estar na tonalidade de E, que é coincidentemente a corda mais grave da guitarra.

    A trilha que nos deu mais trabalho foi a que tinha como tema o início da metrópole, dos anos 30 a 60 mais ou menos. As músicas deste período não tinham o procedimento de loop como base composicional, existiam repetições, mas muitas oscilam em andamento pois eram essencialmente executadas ao vivo. A composição se dava fora dos DAW`s (Digital Audio Workstation). Portanto foi mais difícil acharmos andamentos coincidentes, assim como uma tonalidade que prevalescesse sobre outra. Assim, para tentar encaixar algo que não foi feito para funcionar na lógica de loop, tivemos que “apelar” para processamentos digitais como time strech (quando se estica ou encolhe o tempo de um áudio) ou pitch transformers (quando eu ajusto a frequência das notas a meu bel prazer, o famoso autotune).

    No final do trabalho, fiquei pensando o quanto o mash up consegue realmente se transformar em uma nova obra, ou se sua função é apenas explicitar o quanto as composições são maleáveis e similares as outras. Acredito ser um processo diferente da técnica plunderphonics à maneira de John Oswald na qual os samples utilizados são menores, e o resultado final bate na porta da cultura eletroacústica.

    Os mash ups parecem criar uma dependência dos fonogramas originais. É simbiose como composição, se tirarmos uma das faixas, o mash up para de existir, e o que temos é apenas mais uma música pop. No entanto, eles seguem a tônica dos novos tempos de internet, exemplo de recurso bendable, um tipo de hack de áudio. Vomitam para as redes o que as rádios enfiam goela abaixo.

    Fica aqui o convite para todos irem ver a exposição Bailes do Brasil que fica no Solar da Marquesa (R. Roberto Simonsen, 136 – Sé), perto do Pateo do Colégio. Em exibição de 28 de junho até 25 de outubro de 2015 – entrada gratuita.

    Alessa

    Continue lendo!

    No comments

    Leave a reply

    Full Screen Popup Powered By : XYZScripts.com