Essa colunista descobriu algo que você não vai acreditar

5 Posted by - 29/06/2015 - #6, ano 2, julia teles

  • Normalmente, quando estamos navegando nas redes sociais encontramos diversos links que começam com “você não vai acreditar”. No geral, eu clico imediatamente, pois gosto de saber o que os amigos estão vendo e conhecer a gama de coisas que são oferecidas para nós diariamente sob essa idéia da curiosidade ou da novidade. O resultado do clique pode ser várias coisas diferentes (até porque os títulos não explicam muito, de propósito). Podem ser noivos fazendo dancinhas descoladas no casamento, pedidos de casamento românticos ou em forma de flashmob, instrumentos musicais feitos de cenoura, podem ser vantagens e desvantagens de algum alimento específico, enfim, notícias que os sites pretendem bombar em visualizações.

    O site Catraca Livre, que antes somente divulgava atividades culturais gratuitas ou de baixo custo de ingresso, passou a ser um desses sites em busca de compartilhamentos e visualizações, usando essas matérias engraçadinhas-curiosas. Vi surgir até mesmo alguns sites especializados em matérias curiosas, como o Compartilhável, o Tudo Interessante, e provavelmente muitos outros. É como um ressurgimento digital das revistas Recreio e Mundo Estranho.

    Arte e Música também são itens expostos nessas sites, especialmente em versões mais descoladas deles, como o Hypeness. O título base para quase todas as matérias é “Esse fotógrafo pegou X e fotografou com Y, veja o que aconteceu”, confiram alguns exemplos:

    Fotógrafa clica gatos com deficiência para mostrar como eles continuam sendo incríveis

    Esse cara está transformando as fotografias maternas com incríveis fotos debaixo d’água

    Fotógrafa registra, sem saber, momentos finais de um casal

    Fotógrafa captura cães em momentos de relaxamento

    Aí fica a dúvida. Esses projetos super “curiosos” sempre existiram, ou passaram a existir à medida que passamos a consumi-los nessas grandes quantidades? A saída agora para tornar algo popular é torná-lo curioso? Alguns dos trabalhos fotográficos são bem bonitos, mas sempre vêm com essa roupagem bem publicitária. Isso é um problema?

    O engraçado é que quando acessei esses sites, o Catraca Livre e o Hypeness a partir de suas páginas iniciais, o conteúdo se torna muito mais interessante. Encontramos matérias e críticas de exposições e apresentações, entre outros assuntos diferentes. Mas as matérias específicas que chegam em nós diariamente são essas que estão mais por dentro da lógica da curiosidade. São as que realmente batem recordes de compartilhamento, logo, representam o que a maior parte dos leitores quer ver no site.

    As notícias que mais me marcaram, relativas a som e música, foram essas:

    O som de grilos desacelerado

    Essa curiosidade bombou na internet e logo foi desmentida, não haveria como os grilos soarem assim sem muita manipulação e edição. Eis uma outra matéria que desmente o caso.

    O som do tronco da árvore

    Alguns sites, como esse que postei, venderam a notícia como se o som fosse próprio da árvore. Outros já deram a informação completa, falando que um software interpreta as informações dos sulcos da árvore. Não, uma árvore não soa naturalmente como um piano.

    Será que então precisamos produzir curiosidades para sermos populares nas mídias sociais? Ou até forçar a barra para uma interpretação errônea, para forçar relações com a natureza? Os cinco minutos de fama na era digital.

    Julia Teles

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    2 Comments

  • Henrique Iwao 17/07/2015 - 13:38 Reply

    o som do tronco, aquele em que monta-se um algoritmo que lê os sulcos como composição para piano… fetichismo. eu particularmente não gosto porque é esse meio termo entre ciência (função, mapeamento) e música (composição, som bonito), que parece de fato algo para os 5 minutos de fama da era digital. quantas coisas não são assim? mas se esse for o propósito, então são bem sucedidas.

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