Breves apontamentos sobre uma estética da tropicália

9 Posted by - 29/06/2015 - #6, ano 2, cau silva

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        Mais que um movimento musical, a tropicália foi um acontecimento artístico dos anos 1960 que proporcionou uma nova forma de olhar e entender determinados aspectos centrais da cultura brasileira. A estética tropicalista se desenvolveu em meio a uma sociedade de consumo urbanizada e socialmente desigual, com os problemas específicos de uma cultura oprimida pela ditadura militar. Nesse contexto, sua atitude básica consistia em sobrepor anacronismo e modernização, submetendo arcaísmos culturais brasileiros à  globalização e à tecnologia. Assim, é possível dizer que a tropicália tem significado relevante na trajetória da arte no Brasil por ter questionado o lugar sagrado em que a arte se encontrava em meio à elite tupiniquim e por ter incorporado às suas produções elementos da discussão contemporânea a respeito da arte. Glauber Rocha, Lygia Clark e José Celso são alguns dos exemplos daqueles que fomentaram debates extremamente atuais para o momento, como o entre o experimental e a dimensão ritual da arte, introduzindo o destaque ao papel do corpo na relação entre arte, público e crítica social.

    Hélio Oiticica. B54, Bólide Área 1. 1967. Técnica Mista. Projeto Hélio Oiticica, Rio de Janeiro.

    Hélio Oiticica. B54, Bólide Área 1. 1967. Técnica Mista. Projeto Hélio Oiticica, Rio de Janeiro.

        A centralidade desse debate pode ser vista na produção do artista plástico Hélio Oiticica (1937-80), caracterizada por problematizar a relação entre público e obra de arte. A partir disso, sua ideia era que as artes plásticas não deveriam ficar presas às questões da imagem, mas que também pudessem ser uma nova forma de vivência do cotidiano. Trata-se aqui de quebrar as barreiras da arte, levando questões estéticas para o âmbito do informal e do comum. Não à toa, Hélio foi integrante da comunidade e escola de samba carioca da Mangueira. Além de participar dos desfiles no carnaval, realizou junto com o grupo uma de suas criações ambientais e performáticas. Na primeira tentativa, foi expulso do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ) em 1965 ao ingressar na instituição com os integrantes da escola vestindo os Parangolés, vestimentas coloridas que Oiticica afirmava serem pinturas vivas.

    Hélio Oiticica. Parangolé P6, capa 3. 1965. Projeto Hélio Oiticica, Rio de Janeiro.

    Hélio Oiticica. Parangolé P6, capa 3. Tela, pano, nylon e fotografias de jornal.1965. Projeto Hélio Oiticica, Rio de Janeiro.

     

     

        Em 1967, o artista retorna ao MAM-RJ para apresentar pela primeira vez Tropicália na exposição Nova Objetividade Brasileira. Nessa instalação, o participante (que aqui deixa de ser somente um espectador) tinha que caminhar sobre areia e pedras, procurar poemas entre as folhagens, brincar com araras (vivas) e assistir a uma televisão que não passava nada além de uma imagem chuviscada. Cada ambiente era separado por Penetráveis, placas de materiais e tamanhos variados, dispostos de forma a proporcionar diversas experiências sensoriais. Dessa maneira, Oiticica juntava elementos considerados como tropicais, ao mesmo tempo em que questionava a situação do país na conjuntura política da época. O aparelho de televisão e frases como “o mergulho do corpo”, “a pureza é um mito” e a célebre “seja marginal, seja herói” desmistificavam ironicamente o imaginário de um Brasil folclórico.

     

    tropicau

    Hélio Oiticica. Tropicália. 1967. Plantas, areias, pedras, araras, aparelho de televisão, tecido e madeira. Projeto Hélio Oiticica, Rio de Janeiro.

     

        Semelhante ao labirinto tropical de Oiticica, na música Tropicália (1967), de Caetano Veloso, também aparece a justaposição de fragmentos diversos. Supondo remeter aos trópicos primitivos, instrumentos de percussão geram um clima de suspense e a ambientação musical é efetivada pela letra. As frases ”organizar um movimento” e “inaugurar um monumento” se mesclam fazendo alusão aos aspectos políticos e alegóricos da terra brasilis. Além do mais, a introdução de recursos eletrônicos ampliava as possibilidades de arranjo e vocalização, desconstruindo certa tradição musical nacional.

     

    eu organizo o movimento

    eu oriento o carnaval

    eu inauguro o monumento

    no planalto central

    do país

    viva a bossa-sa-sa

    viva a palho-ça-ça-ça-ça

     

      Com o mesmo estilo irreverente de Oiticica, Caetano aparecia em programas populares de TV celebrando a cafonice e a ironia, trajando roupas de plástico e colares de macumba. A questão estética da miscelânea havia se transformado em atitudes cotidianas, assim como as proposições experimentais de Oiticica. Nesse sentido, podemos perceber que tal concepção da arte não está longe da adotada pelo cubismo e pelo dadaísmo. Caracterizados pela bricolagem de elementos visuais e sonoros e pela atitude anárquica e questionadora em relação ao próprio circuito artístico, estes movimentos veicularam a ideia de antiarte que tanto Duchamp quanto Oiticica utilizavam para contextualizar suas performances. No Brasil, a mobilização desse conceito por Oiticica é a proposta da tropicália de descolonizar de modo irônico o Brasil, constituída por um verdadeiro ready-made de elementos advindos de problemas e questões do dia-a-dia em sociedade. Nada mais coerente com tal proposta do que Caetano distribuindo bananas à audiência no programa do Chacrinha.

     

     Caetano Veloso no Programa do Chacrinha. Arquivo Projeto Tropicália.


    Caetano Veloso no Programa do Chacrinha. Arquivo Projeto Tropicália.

     

        De modo geral, é interessante perceber no movimento da tropicália a vontade de misturar a pesquisa artística à vida cotidiana. A incorporação de aspectos da cultura nacional na produção artística gerou uma atitude quase que implícita de imersão em um modus vivendi, ou seja, de utilização de elementos mais recorrentes da cultura de massa, até então ignorados pela classe artística. No movimento modernista de 1922, por exemplo, houve a revisão de elementos étnicos, linguísticos, folclóricos etc., mas sem a fusão com canais populares de entretenimento. A letra da música Geléia Geral, de Gilberto Gil e Torquato Neto, condensa todos os paradigmas da estética tropical:

     

    (é a mesma dança na sala

    no canecão na tv

    e quem não dança não fala

    assiste a tudo e se cala

    não vê no meio da sala

     

    as relíquias do brasil:

    doce mulata malvada

    um elepê de sinatra

    maracujá mês de abril

    santo barroco baiana

    superpoder paisano

    formiplac e céu de anil

     

    três destaques da portela

    carne seca na janela

    alguém que chora por mim

    um carnaval de verdade

    hospitaleira amizade

    brutalidade jardim)

     

    Hélio Oiticica. Parangolé P15, Capa 11, Incorporo a Revolta. 1967. Técnica Mista. Projeto Hélio Oiticica, Rio de Janeiro.

    Hélio Oiticica. Parangolé P15, Capa 11, Incorporo a Revolta. 1967. Técnica Mista. Projeto Hélio Oiticica, Rio de Janeiro.

        A tropicália foi um movimento de ruptura que questionou a forma de se pensar a arte no Brasil. A abertura do movimento, no entanto, não tratou de generalizar as especificidades da arte e da cultura, mas de pensar na possibilidade da produção artística como alguma coisa que seja flexível em relação aos acontecimentos do mundo, no sentido da transformação criativa e da propagação da arte para além das suas barreiras, onde talvez achamos que ela não possa existir.

    Cau Silva


     

    PARA SABER MAIS:

    Livros

    FAVARETTO, Celso. Tropicália, alegoria, alegria. São Paulo: Ateliê Editorial, 2007.

    FREITAS, Artur. Poéticas Políticas: Artes Plásticas entre o golpe de 64 e o AI-5. História: Questões & Debates, Curitiba, n. 40, p. 59-90, Editora UFPR: 2004.

    OITICICA FILHO, Hélio (org.). Encontros: Hélio Oiticica. Rio de Janeiro: Beco do Azougue, 2009.

     

    Links

    Projeto Hélio Oiticica

    Projeto Tropicália

    Enciclopédia Itaú Cultural

     

    Foto da capa

    Hélio Oiticica. Parangolé P1, capa1. 1964. Plástico e tecido. Projeto Hélio Oiticica, Rio de Janeiro.

     

     

     

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