Adaptar um chá/um conto: obstruções

3 Posted by - 29/06/2015 - #6, ano 2, luis felipe labaki

  • No último mês de maio, aconteceu em São Paulo o concerto NMElivro, acompanhado do lançamento virtual do álbum com as peças que foram apresentadas. A ideia inicial do projeto era simples: cada compositor iria trabalhar a partir de alguma obra literária ou autor que lhe interessasse e ver no que dava. Eu contribuí com “Serafim e a malícia / Reabilitação balística”, peça “inspirada em” (ou feita a partir de) “Serafim Ponte Grande”, de Oswald de Andrade.

    Esse formato a princípio não é estranho ao NME, que já realizou outros projetos que tinham como eixo central algum elemento extra-musical: NMEchá, NMEpássaro, vídeos inspirados na ideia de “2” e por aí vai. Em todos os casos, acho que essas temáticas foram propostas apenas como gatilhos criativos (ou como obstruções, no sentido positivo do termo – como aquele usado pelo cineasta Jørgen Leth) tanto para as peças quanto para os concertos em si. E, especialmente no caso dos chás e dos pássaros, a aparente distância entre uma peça acusmática e, digamos, um chimarrão suscitou diferentes estratégias de composição (alguns partiram da história do chá, outros de sua história com o chá, outros das propriedades específicas da infusão etc., outros talvez tenham apenas tomado o chá enquanto compunham) e também de recepção por parte do público que, diante da sugestão oferecida pelo compositor, podia tentar estabelecer algum paralelo entre música e chá ou – como nunca deixa de ser uma opção – não.

    (Falei por acaso da aparente distância entre o chimarrão e a acusmática, mas o Chico já escreveu sobre o ato composicional do mestre-queijeiro em um de seus primeiros textos para a linda. )

    Quando chega a vez dos livros, a relação entre “objeto inspirador” e peça parece menos inusitada. Isso porque livros (textos) são provavelmente a matéria-prima favorita quando se trata de buscar algo para passar de uma linguagem (ou ‘forma de existência’) a outra, ao menos em alguns contextos. Falar em adaptar o chimarrão para um filme talvez soe estranho (não fazer um ‘filme sobre o chimarrão’, mas um filme baseado no chimarrão); adaptar um conto, talvez não. Talvez não por haver algo de mais “natural” em adaptar um conto, mas por ser o tipo de adaptação que mais vemos por aí batizada como tal.

    Batizada e anunciada: “peça/ópera/canção/filme baseada em uma novela de.”

    Ou ainda: “inspirada pelos conceitos discutidos em…” (o que por si só já supõe uma relação bastante diferente entre as partes.)

    O jogo de referências anunciadas sugere um trabalho de busca de semelhanças e dessemelhanças (enfim, de algum tipo de diálogo com o outro objeto) por parte do compositor e daquele que escuta. Nos concertos com chá, servimos o chá enquanto a peça é tocada; no concerto do livro, provavelmente não teríamos tempo de oferecer as obras escolhidas para que a platéia as lesse no decorrer da respectiva peça. Mas, caso tivéssemos, faria sentido? Até que ponto aquele que faz a adaptação/derivação pode esperar ou querer ou exigir que aquele que escuta/vê tenha conhecido o “original”? Até onde pode ir essa vontade sem que se interrompa o diálogo com base em um “Bom, mas fato é que você não sabe do que estou falando”?

    Às vezes, isso pode fazer sentido. Às vezes, pode estar servindo de escudo.

    (Até onde vai a diferença entre dar o crédito à ‘obra inspiradora’ por, sei lá, ‘honestidade intelectual’, e usá-la para justificar desenfreadamente suas próprias escolhas estéticas?)

    A ênfase no processo de adaptação/transformação/diálogo ou a ênfase no resultado deste processo. Retomando Jørgen Leth, o filme As cinco obstruções – em que ele é desafiado a recriar diversas vezes seu curta-metragem O ser humano perfeito seguindo uma série de regras impostas por Lars von Trier – tomado como um todo, e não os curtas realizados por Leth ao longo do processo.

    Ou, efetivamente, o resultado do processo: Game of Thrones (aliás, aparentemente a série ultrapassou os livros; será que agora os produtores do seriado poderão argumentar com os fãs que os futuros romances é que não estão sendo fiéis à série?)

    Ou ainda: Die Hamletmaschine, versão do Einstürzende Neubauten. No fim das contas, uma adaptação tradicional. Talvez nem tanto uma adaptação: uma versão.

    E por aí vai.

    Luis Felipe Labaki

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