“Viver somente de amor é tão lindo quanto precário”

1 Posted by - 24/05/2015 - #5, ano 2, julia teles

  • No seu artigo de abril, o Tiago de Mello comentou a questão de trabalhar sem receber quando ninguém está recebendo; a situação do Superbowl, que oferece a artistas pops, como a Katy Perry, a “visibilidade” do trabalho como pagamento, assim como estamos acostumados a nos oferecerem (ou, ainda, exige que que o artista pague para fazer o show); a linda e sua falta de remuneração geral – há problemas em não ganhar quando ninguém está ganhando? E então resolvi entrar um pouco nesse assunto.

    No meu artigo da linda impressa 1, ano passado, escrevi sobre como temos que ter mil profissões ao invés de uma, se queremos pagar nossas contas: o trabalho de compositor, em si, paga pouco (quando paga). E por isso, resolvi comparar possíveis situações, pois existem muitas delas.

    Eu acho ok não receber para escrever para a linda, afinal, sei que é uma revista colaborativa e é uma opção minha querer escrever aqui, querer gerar um conteúdo para a revista, é um projeto do qual eu opto por fazer parte. Faz parte do que eu quero fazer na minha carreira. Não ter remuneração nesse caso é sim um mero detalhe. Aqui não é a questão da visibilidade somente, é a questão de querer construir algo em conjunto, querer dialogar. A tal da convivência humana e artística. Talvez outras pessoas não optem por isso, tenham outros projetos e ideias que os movem, e assim, simplesmente decidem não escrever para a revista.

    Existem muitos projetos que a gente opta por fazer independente de ter dinheiro envolvido. Na nossa área nem tudo (aliás, quase nada) é remunerado, e se formos esperar isso em todo projeto/apresentação em que nos metemos, é melhor arranjarmos outra coisa pra fazer da vida. Ao mesmo tempo, creio que deve haver sim uma busca de valorização do “produto” que está sendo criado e apresentado, justamente para mostrar que é um trabalho como qualquer outro. Já vemos por aí um sucateamento da cultura, cortes de verbas, perspectivas não muito animadoras do futuro das artes no geral. Na contrapartida disso, tem que haver um movimento de valorização das criações, pois, se não houver, estaremos cada vez mais dependendo de outros trabalhos para pagar as contas e investir nas nossas pesquisas artísticas.

    Quando vamos tocar em shows, criar uma trilha inédita, criar um concerto etc, é muito chato quando os espaços só nos oferecem espaço (e visibilidade), mas não entram com um mínimo de ajuda de custo ou cachê artístico. Fica parecendo que, ao invés de quererem nossa manifestação artística naquele espaço, na realidade estão nos fazendo um enorme favor de deixar-nos tocar ali, quando não é verdade. Eles precisam de nós, músicos, para movimentar aquele local, torná-lo ativo, caracterizá-lo como musical ou cultural. A triste situação é que muitos desses espaços, mesmo os oficiais e públicos, têm verbas pequeníssimas, ou não têm verba nenhuma, como nos casos dos espaços independentes. E aí não tem jeito. Tem-se que fazer escolhas. E cada caso é um caso.

    O título do texto é uma citação de Leonor, de Itamar Assumpção (e quem me indicou foi Luis Felipe Labaki). Segue o link do álbum todo, Leonor é a primeira faixa.

    Julia Teles

     

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