Promessas Favela Chic de Felicidade – conversas entre Mammì, Garcia e Sterling.

1 Posted by - 24/05/2015 - #5, ano 2, alessa

  • Lorenzo Mammì em seu artigo “João Gilberto e o projeto utópico da bossa nova” discute as relações entre bossa nova e o jazz norte-americano. Lá ele escreve que “se o jazz é vontade de potência, a bossa nova é promessa de felicidade”, e desenvolve estes termos mostrando características não só dos gêneros musicais em questão, mas fala das diferenças culturais destes dois países. Uma das comparações se dá na relação de tempo e trabalho entre jazz e bossa nova. Para ele, existe no Brasil bossanovístico “uma sensação de temporalidade suspensa que não é ócio, mas uma atividade que se produz naturalmente sem sofrimento ou esforço, como por emanação”. Enquanto na utopia jazzística, a vontade de potência, o exercício da vida privada é uma espécie de treino para a vida pública, na qual se reconhece e se premia o esforço (MAMMÌ, p. 70).

    No entanto, a utopia “chega de saudades” não se demonstra ensolarada como escreve Walter Garcia no artigo“Radicalismos à Brasileira”. Existe melancolia no trato desta afetividade. Sua leitura de Mammì atravessa Sergio Buarque de Hollanda, ele ilustra o caráter melancólico via “utopia cordial”, na qual se estabelece a “supremacia das relações afetivas, das vontades particulares, da opinião tradicional sobre os princípios neutros e abstratos, sobre as normas antiparticularistas de organização social”. Garcia explica que embora a dimensão bossanovística passe por um otimismo das classes médias e altas que harmonizam conquistas materiais do capitalismo e a permanência destas estruturas da utopia cordial, esta ética cordial não é feita apenas de sentimentos positivos, como escrito em Sérgio Buarque de Hollanda. (GARCIA, p.3).

    Visto isso, gostaria de traçar um paralelo e propor uma revisão destas comparações à luz da música feita com mediação tecnológica. A comparação tem uma distância temporal de quase 50 anos, e obviamente este texto não dará conta do tamanho do problema. Mas acredito valer à pena iniciar investigações. Se jazz e bossanova são manifestações artísticas que conseguiram traduzir uma possível utopia de seu tempo, a música tecnológica pode caminhar na mesma direção.

    O novelista americano Bruce Sterling, estudioso dos fenômenos tecnológicos, descreve em seu livro Gothic High Tech duas sensibilidades que estão sendo encaminhadas pelo futuro tecno-digital que vivemos. Não existe menção diretamente ao mundo da música, mas à relação das pessoas com produtos de tecnologia. Como o tipo de música que estamos investigando é cada vez mais mediada por estas ferramentas de consumo, logo esta também contém indicativos desta relação.

    As duas sensibilidades são chamadas por ele de gothic high tech e favela chic. A primeira diz sobre as figuras metafóricas de nosso passado “analógico” e sobre as ausências deixadas pela ordem industrial; um exemplo é a cidade de Detroit. A falta de função social levando à ruína. Ruína também causada pelo fato de ser “super high tech”, consequência de uma transição na qual a riqueza consumida é maior do que a produzida. Esta sensibilidade está ligada à cultura de consumo americana. A nostalgia e o discurso desconectado com o presente também são sintomas desta sensibilidade. Podemos ver indícios disso no crescente uso de tecnologia antiga, vintage, nas músicas atuais, consoles analógicos, sintetizadores etc. O que antes era high tech, hoje é ruina, num discurso desconectado no tempo. As sonoridades são construídas através de lembranças em uma prática museológica.

    A segunda sensibilidade favela chic diz sobre a promessa de emancipação via tecnologia principalmente nos países subdesenvolvidos. Estes apenas ocupam a função de crescer consumindo, um crescer sem autoria, crescer para lugar nenhum. Seu discurso utópico se dá no vácuo dos fracassos institucionais. E o tempo só revela seu caráter precário, e temporário. Exemplos desta sensibilidade são blogs e discussões via facebook que tentam uma democracia eletrônica ao invés de real participação social; outro exemplo colocado por ele é o artesanato digital levando apenas para a precarização do trabalho. Nada sólido é construído uma vez que todo o sistema é programado para ser efêmero. Esta relação tecnológica pode ser vista nos funks cariocas. Ao contrário da sensibilidade gothic high tech, os “proibidões” são produtos da cultura de gambiarra. Sua mídia hardware é impressão caseira, e às vezes nem isso, youtube desmaterializado. Remix e reuso de outras músicas são bases para composição. Inexistência do Estado e desejo de consumo são temas comuns de suas rimas.

    Assim como Mammì e Garcia buscam examinar a música com uma ótica sociológica, a música mediada por tecnologia pode ser olhada pela relação que estabelecemos com esta tecnologia. Posteriormente à bossa nova, a Tropicália anuncia algumas características favela chic, mas não dá conta de prever o futuro, uma vez que ela própria se torna gothic high tech fetichizado.

     PARA MAIS INFORMAÇÕES:

    GARCIA, Walter. Radicalismos à brasileira. Celeuma, Brasil, v. 1, n. 1, p. 20-31, jun. 2013. ISSN 2318-7875. Disponível em: <http://www.revistas.usp.br/celeuma/article/view/68015/70585>. Acesso em: 18 Mai. 2015. doi:http://dx.doi.org/10.11606/issn.2318-7875.v1i1p20-31.

    HOLANDA, Sérgio Buarque de. 2001. Raízes do Brasil. 26a ed., 11a reimpressão. São Paulo: Companhia das Letras.

    MAMMÌ, Lorenzo. 1992. João Gilberto e o projeto utópico da bossa nova. Novos estudos Cebrap, no 34. São Paulo, novembro. p. 63.

    STERLING, Bruce. 2011. Gothic High Tech. Subterranean Press.

    STERLING, Bruce. 2009. Gothic Chic in the Future Favela. Symposium: me you and everyone we know is a curator. Transcrição disponível em http://mastersofmedia.hum.uva.nl/2009/12/21/bruce-sterling-gothic-chic-in-the-future-favela/> New Media & Digital Culture Master of Media, University of Amsterdam.

    Alessa

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