coleção de cenas e memórias sonoras

2 Posted by - 24/05/2015 - #5, ano 2, bruno fabbrini

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    Coleção de cenas e memórias sonoras (short cuts)

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    4 canos cantam o esgoto (arroto de enxofre)

    Saímos da Serralheira, ela queria comprar cigarro. Andamos duas quadras até o posto, chovia, ou acabara de chover, as calçadas estavam molhadas e refletiam as poucas luzes da rua no asfalto. Avistamos o posto desde longe, compramos o cigarro, quase paramos pra comer uma esfilha prenhe de azia (massa que fermenta, só a do gênio) no caminho da volta e passamos em frente ao Olímpia. Olímpia que não é Olímpia há muito tempo, mas um dia foi, juntando filas imensas na porta da cena de rock, hard rock, metal, guitarristas e afins numa época que há muito já se foi. Hoje sequer sei o nome da casa e nem o que faz.

    De volta, próximos à Serralheria, uma típica surpresa da beleza ruidosa da cidade. Escutei um som estranho e, ao me aproximar do meio fio, ouvi quatro canos cantando. Com a água das chuvas se movendo dentro do bueiro, involuntariamente aquele meio de quadra criou uma escultura sonora, com estrutura semelhante ao Sea Organ, do arquiteto Nikola Basic, uma espécie de órgão feita de canos de plástico invadido pela água do Mar Adriático e que toca ao ritmo das embarcações. Isso acontece numa pequena cidade costeira da Croácia, Zadar. Eis um link detalhando melhor a obra: linda.nmelindo.com/2014/09/sea-organ

    A involuntária escultura aqui da cidade tem bem menos que 35 canos, não fica em volta da costa, não alimenta coloridos paineis de led através de energia solar em seu entorno e nem toca uma harmonia consonante, mas deve conhecer intimamente a história dos bichos que vivem nos esgotos e entoar o canto das imundícies e restos da cidade em cada uma de suas notas. Inusitada beleza ecoando desde os dejetos da cidade.

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    Takefu Summer

    Na edição anterior da linda escutei alguns resquícios de Okinawa, em uma escuta inventada, como diria Manuel de Barros.

    No texto da linda de abril, de autoria da Lilian, há uma série de histórias e reflexões sobre a memória e junto a ela uma proposta de criação artística. Ela conta que perdeu suas memórias de Okinawa, gravadas em fitas, extraviadas pelos correios e reconta então sua história através da própria recordação – uma memória sonora sem suporte físico. Belo texto pra se conferir, abordando diversos aspectos entre som, impressões acústicas e memória. Através dele ganhei mais uma embaralhada memória da simpática ilha que desconheço e, às avessas e de ponta-cabeça, aqui repercute .

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    Uma história mais porque por coincidência tenho um amigo descendente da ilha e que, segundo relata, tem uma cultura muito particular, formada por influências chinesas e japonesas, mas assimiladas a sua própria compreensão. Nakamura, esse meu amigo, gravou uma série de paisagens sonoras próximas à ilha e lembro de, escutando o material pela primeira vez, tomar um susto ao escutar sem aviso um som assustador, alto, e que – depois viria a descobrir – seriam das cigarras de um campo local*. O noise era simultaneamente lindo e ensurdecedor e imediatamente ali eu acabara de criar uma memória sonora de Okinawa, que hoje reconheço como parte de uma memória (quase inventada) e recombino livremente, parecido aos resquícios de frases estrangeiras que ouvimos ao viajar e ficam povoando a cabeça; ou dos filmes, músicas e qualquer material auditivo que nos possibilitem criar uma imagem.


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    Agridoce

    Alguns anos atrás, ainda estudante da PUC, realizava um trabalho pra aula de direção de cine e a proposta era produzir programa documental-sonoro com histórias que resolvi fazer registrando a minha mãe. Fiz umas duas ou três perguntas, ela contou uma ou duas histórias e pronto. Quando fui apresentar pro grupo, a Tulipa (Ruiz, sim :) disse que a voz da minha mãe era linda, que ela contava a história de um jeito doce e fez uma série de elogios. Na mesma medida que me surpreendeu o comentário, eu ouço a voz da minha mãe todos os dias, eu ouço as histórias da minha mãe há décadas mas, de fato, ignorava todo poder da sua voz como uma fonte impressa da sua identidade. Quem seria aquela personagem por trás dos tons, percepções, palavras e dinâmicas que escapam pela expressão de sua sonoridade (mais íntima)? Sim, a voz é um registro poderoso, seja a voz de uma pessoa, de uma cidade, de um lugar, como representação de um estado de nervos ou ainda de uma idade. Por trivial que possa parecer a constatação, reconheci claramente a diferença entre um saber familiar e, de fato, a ignorância da potência de seu alcance.

    Seguindo a pista da Lilian, quem era meu sujeito sonoro aos 5 anos?

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    DBs

    Tempos atrás eu vinha conversando com o Ivan (Chiarelli) da falta que fazia podermos (re)contar uma história sonora da cidade. Podemos até conhecer e quantificar alguns dados, por exemplo, de que em determinado ano o volume médio da cidade era tanto e agora é tanto, que a população cresceu, os prédios são mais altos e existem mais carros, mas não escuto nenhum tape sobre isso. Quando Russolo colocou os intonarumoris dentro dos teatros para mostrar a paisagem sonora da cidade, de alguma maneira era a isso que ele se referia. Como disse à Lilian, costumamos guardar lembranças em imagens, fotos e vídeos, mas não sonoras. Talvez Russolo tentasse dar vida à sua percepção de mudança, à época, através de uma fotografia sonora.

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    Orquestra do inferno

    Aproximadamente 800 dias comprimidos em um frame. Parece rápido, mas não foi. Meu ouvido que o diga o que foi escutar a sinfonia das obras soando ininterruptamente nesse período pra simplesmente eu me ver colando dois frames e dizer que está pronto.

    buracoprédio

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    Memória sintetizada

    Pra terminar, um doc pra você reconhecer e se emocionar com os lindos – e não tão lindos – sons sintetizados presentes na história dos filmes.

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    * eu me lembrava mais da impressão (pelo susto) que tinham me causado as cigarras, do que propriamente do som que havia escutado.

     

    Bruno Fabbrini

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