Anton Gustavsson Tolkar Iron Maiden

3 Posted by - 24/05/2015 - #5, ano 2, henrique iwao

  • The Trooper, Anton Maiden:

    1. Tem bandas que nunca terão seu Anton Maiden. Nem toda banda pode se dar ao luxo de ter seu Anton Maiden.

    2. Em 1999 um adolescente sueco de 19 anos ficou conhecido por suas interpretações de canções do grupo de rock Iron Maiden. As partes instrumentais eram executadas por um computador, a partir de versões midi e mod das linhas de cada instrumento. Em um vídeo, vemos Anton usando um microfone de plástico, bem vagabundo, para cantar.

    3. O álbum de 1999 pode ser baixado e ouvido, canção por canção, aqui. Da combinação de entusiasmo, fanatismo, ingenuidade, má impostação e desafinação da voz resulta o estilo característico. A primeira impressão é de surpresa, risada e maravilhamento. Durante a escuta do conjunto, em sua íntegra, há recaídas – momentos em que, de repente, parece que se está a escutar algo só mal cantado e com timbres toscos – e aí uma certa vergonha alheia, um receio de compartilhar o fato de que você estava vibrando. Mas faixas como The Trooper e Rime of the Ancient Mariner são antológicas.

    4. Para aqueles que acostumaram a associar prontamente o ruim com o indesejável, há de fato um problema. Porque não é simplesmente dizer que a zoeira não tem fim – estamos diante de um trabalho sério, feito por um fã para homenagear seus ídolos. E gostar não deve ser um segredinho sujo (quando damos a entender escárnio na frente dos colegas, mas jubilamos em casa). Existem detalhes nas linhas de “som midi”, aproximando-as de coisas como as trilhas da série Megaman. E algo na crueza vocal – um deslocamento, um embate. No jovem com camiseta preta em frente ao pc, de pé, com o tênis apoiado na cadeira, compenetrado – uma verdade.

    5. Mesmo sem ter sido fã da Donzela de Ferro, posso cantar junto alguns trechos. A lembrança do quão, aí sim, essa banda era ruim, mas em um sentido diferente – brega e onipresente; de como ela era o representante do status quo, de um modo careta de fazer as coisas – de uma energia de revolta juvenil aplainada, acalmada, de uma imaginação padronizada. De como existia algo de comodista no modo de tocar. De como havia uma colagem descuidada de elementos díspares (eddie, roupas, letras), mas que nunca chegava a ser radical.

    6. Fazer você mesmo, com os meios disponíveis, e dar um jeito. Mas isso não é suficiente. É preciso ser ingênuo, ter um coração puro. O segredo da transformação do ruim no bom, na expressão é tão ruim que é bom, é esse. Existem versões esculachadas, que almejam essa qualidade, mas aí para atingi-la é necessário esforço e não simplesmente ser um músico em falta. Ser um músico em falta é ruim, e apenas ruim. Assim como pintores buscavam aprimorar-se para resgatar traços estilisticamente infantis. Em música, gosto especialmente de Anti-Karaoke #1, de Weasel Walter.

    7. Há aí de fato uma provocação. Rejeitar de cara as interpretações de Anton pode ser encarado como um sinal de peleguice, de uma conduta irrefletida de defesa dos valores tradicionais.

    8. Em Saturday Morning Apocalypse, Powerglove grava versões bem tocadas e com um sonzão de trilhas de videogame e filmes. Isto é, demonstra bem a ideia padronizada do que é um bom som de rock e do que são habilidades de metaleiros que tocam bem. Mas isso não lhes basta: também querem fazer troça da pose metal enquanto a reforçam. E, é verdade, soam como uma risadinha condescendente, apresentando versões assépticas. Já Anton confere nova vida a Maiden – torna de fato possível, anos depois, revisitar as músicas (e não simplesmente recorrer aos originais).

    9. Quantas pessoas não fizeram coisas similares, na época ou antes? Eu mesmo lembro de realizar composições com bateria, baixo e guitarra, usando softwares de notação musical e o tal do piano roll. Mas poucas usufruiram do efeito de retroalimentação positiva que AGTIM sofreu, viralizando na internet para, enfim, permanecer e ter a possibilidade de consolidar-se como um álbum de importância.

    10. Em 2003, Anton se suicidou. As suas interpretações passariam a ser a obra de uma vida.

    Henrique Iwao

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