Um nicho binaural

4 Posted by - 26/04/2015 - #4, ano 2, luis felipe labaki

  • Na edição passada da linda, a Alessa falou sobre microfones binaurais: sobre andar pelas ruas com eles e acabar se sentindo (ou sentindo a necessidade de ser) um coreógrafo a esculpir sonoramente o espaço percorrido.

    No ano passado, eu também falei sobre minhas primeiras experiências com binaurais: sobre andar pelas ruas com eles e acabar se sentindo um espião.

    Mas talvez a grande maioria das pessoas use o som binaural para dormir.

    Eu encerrei esse meu texto do ano passado mencionando os vídeos de ASMR – Autonomous sensory meridian response – que eu tinha acabado de descobrir. Em números absolutos, tanto em quantidade de horas, de vídeos e de número de visualizações, esse provavelmente é o uso mais popular do som binaural que temos por aí, ainda que um vídeo de ASMR não tenha que ser necessariamente binaural.

    (De todo modo, recomendo que coloquem os fones para assistir os vídeos a seguir.)

    Continuo não sendo um especialista no assunto, mas acumulei algumas horas a mais gastas procurando e assistindo vídeos de ASMR no Youtube. Se ainda não sei muitas coisas sobre eles, pelo menos já tenho algumas questões que alguém que saiba talvez possa ajudar a responder ou a pensar sobre.

    Eu não costumo ter crises de insônia e cheguei no ASMR por acaso, procurando por gravações binaurais. Mas há uma infinidade de relatos de pessoas que assistem/escutam esses vídeos para conseguir pregar os olhos, relaxar ou pelo menos sentir o famoso “comichão” que parte da cabeça e se alastra para o resto do corpo. E assim, na descrição dos vídeos ou na introdução que muitos performers fazem antes de começar a efetivamente manipular objetos, fazer barulhos com a boca etc., quase sempre há alguma referência a esse objetivo bem concreto: no fundo, o que se quer é que o espectador/ouvinte relaxe, descanse e, potencialmente, nem mesmo aguente ver o vídeo inteiro antes de cair no sono – aliás, poucos terão menos de quinze minutos.

    Há muitos que apresentam uma seqüência de “gatilhos” (triggers), sons variados, para que você descubra qual tipo de ruído te faz, afinal, relaxar. Os mais comuns envolvem escovas, diferentes tipos de tecido, barulhos de mãos e muitos tipos de ruídos feitos com a boca.

    Mas há coisas um bocado mais esquisitas:

    Esse é um dos poucos canais de ASMR feitos por homens que eu vi por aí. O “ASMRtista” (assim eles se chamam) em questão também tem vídeos jogando gameboy, limpando uma arma e, em um crossover com outro fenômeno do YouTube – o unboxing -, desencaixotando uma caneta nova enquanto sussurra:

    Um artigo bem legal no site da revista Forbes, escrito por Nick Messitte (parte 1 e parte 2) discute muitos aspectos do ASMR, inclusive a complicada questão de gênero na comunidade: a imensa maioria dos canais mais populares são feitos por mulheres jovens “em idade de ter filhos” (como diz uma das entrevistadas na matéria). Há muitos pontos de vista, inclusive o de uma ASMRtista que diz que “a maioria de nós, homens ou mulheres ou de qualquer gênero (…) não estamos acostumados a nos sentir seguros com vozes masculinas bem, bem perto de nós. Então a ideia de ter um homem sussurrando no seu ouvido, tanto para homens quanto para mulheres, pode ser desconfortável por uma série de razões.” Achei curioso, de todo modo, que eu tenha encontrado um vídeo (com temática sci-fi) descrito como “ASMR for men“:

    Messitte pergunta a seus entrevistados também sobre uma possível carga sexual latente nos vídeos, ideia que todos, inclusive ele mesmo – um ex-insone que usava os vídeos para dormir – refutam, ao menos sugerindo que um subtexto sexual não está entre as intenções dos criadores e do principal “público-alvo” do ASMR, ainda que muitos tenham que lidar com “comentários sugestivos” etc.

    Eles discutem também a rentabilidade do ASMR:  será que os “ASMRtists” poderão viver apenas do dinheiro coletado via doações ou publicidade no Youtube? Será que os álbuns de ASMR – há uma infinidade deles no iTunes – venderão aos montes?

    No mesmo iTunes, aliás, vi muitos deles indicados como “New Age”, provavelmente só porque alguém não soube muito bem como classificá-los. Um disco com um nome bem genérico – ASMR: Massage of the Mind – dá uma ideia da variedade de sons ou “gatilhos” selecionados para o relaxamento ou qualquer outra coisa, e não se trata apenas de sons extremamente sutis.

    Tanto eu quanto a Alessa falamos sobre o binaural principalmente sob a perspectiva de criação de espaços, seja em um registro “documental” ou na tentativa de inventar espaços imaginários. Falamos sobre um “eu-binaural” móvel: alguém que circula por aí, alguém que dança por ali. O “eu-ASMR”, por sua vez, não se movimenta: ele é passivo, sujeitando-se a toda uma série de procedimentos que terão sua percepção como foco, mas que não exigirão ou simularão sua movimentação e que quase sempre dependerão da ação de um “outro”, de uma figura responsável pela criação desses estímulos. O ASMR lida com espaços, mas espaços ultrarrealistas e inevitavelmente próximos: geralmente a maior distância existente é entre os extremos dos nossos dois ouvidos. Ou escutamos algo que está um bocado próximo de um ou de outro, e raramente sentiremos a fonte emissora se afastando mais do que alguns centímetros. O binaural é utilizado não para traduzir amplidão, mas proximidade; não para sugerir a exploração de um espaço, mas para que algo nesse espaço venha até nós e nos envolva tanto quanto for possível.

    Talvez por isso mesmo haja tantos vídeos de role-playing no ASMR: já que os estímulos dependerão da ação de um “outro”, por que não fantasiar a respeito dessa figura? E, no fim das contas, me parece que as imagens são tão importantes quanto os sons para muitos daqueles que produzem e consomem ASMR.

    (Aqui, aliás, ainda que se negue a intenção explícita de algum subtexto sexual na produção dos vídeos, ao menos formalmente o ASMR se aproxima ainda mais dos filmes pornô: enquanto alguns apresentam apenas o sexo, outros recorrem a histórias mais ou menos – geralmente menos – complexas para adicionar às cenas novos elementos ligados a potenciais fantasias e fetiches dos espectadores, nem que o fetiche seja a simples existência de alguma linha narrativa.)

    Muitos dos vídeos de role-playing lidam também com estímulos visuais diretos, com muitas simulações de consulta ao oftalmologista (e outras temáticas mais inusitadas como uma conversa com uma agente de viagens). Como o vídeo “for men” aí acima, encontrei muitos outros com temática sci-fi. Esse aqui, por exemplo, demandou um esforço de produção notável:

    Outros vídeos parecem deliberadamente se afastar da “ideia inicial” do ASMR para tentar outras coisas (ainda) menos “ortodoxas”.  Uma menina de um canal bastante ativo, por exemplo, resolveu fazer um vídeo fantasiada de Samara, do filme O Chamado, com os sons invertidos, que classificou como “Scary-ish ASMR”.  “Isso é um oxímoro!”, disse alguém nos comentários, ao que ela respondeu que “gosta de misturar coisas assustadoras com coisas relaxantes”.

    Admito que não soube muito o que pensar quando me deparei com a saga de Candy Man, descrita como um “ASMR pós-apocalíptico”:

    Enfim. Assim como o YouTubePoop, o ASMR já possui sub-gêneros que não me arrisco nem em tentar nomear. Talvez ele seja o anti-poop em muitos aspectos – inclusive nesse movimento de “profissionalização” dos próprios ASMRtistas que parece existir (um canal-clínica de ASMR?) -, mas não em relação à quantidade de material produzido, difundido e debatido por aí.

    Por curiosidade, procurei “ASMR poop” no Youtube para ver o que acontecia. Não por acaso, o primeiro vídeo a aparecer se chama “the only ASMR poop anyone has ever made”:

    O segundo quebrou todas as barreiras da literalidade e foi além de qualquer coisa que eu poderia esperar. Quem quiser ver, que fique à vontade.

    Luis Felipe Labaki

     

    Continue lendo!

    2 Comments

  • Sergio Abdalla 27/04/2015 - 07:13 Reply

    me fez lembrar disto:

    http://datagarden.org/3871/john-cage-plays-a-cactus/

    é um video engraçado, com cortes e fades inexplicáveis, mas o que me lembrou foram a pena e o cacto, que aqui têm sons íntimos & são objetos esquisitos de se ouvir com microfones tão perto.

    falando de música, aqui tem uma galera tocando planta, numa [se não me engano, a mesma de cima, mas aqui completa e sem vídeo para atrapalhar a audição] peça do cage:

    http://ubumexico.centro.org.mx/sound/cage_john/proms/Cage-John_Proms_2012_22-Cage-Branches.mp3

    Branches (1976)

    First performance at the Proms

    Also known as Improvisation IB, Branches is a semi-improvised work for any number of percussionists playing amplified plant materials, ‘at least one of which [must be] a pod rattle from a poinciana tree and at least one (preferably several) [of which] are cacti’. The latter are played by plucking their needles with toothpicks; amplification is enabled either by cartridge-like devices or by close-miking. Other possible sound sources might include dry leaves, bark, brittle twigs, sheaves of grass, plucked pine cones, and so on. A performance of Branches in addition includes a rendition of its predecessor, Child of Tree (also known as either Improvisation I or IA), which was written the previous year for a solo percussionist. As noted earlier in relation to Improvisation III, Cage subverted his dislike of improvised music by employing uncontrollable instruments: here, as he explained in an interview, ‘in the case of the plant materials, you don’t know them; you’re discovering them. So the instrument is unfamiliar [and] the whole thing remains fascinating, and free of your memory as a matter of course’.

  • Lilian 14/05/2015 - 21:17 Reply

    Muito legal o texto! cruzei algumas vezes com vídeos de asmr mas nunca entendi bulhufas de que tipo de tribo se tratava…

  • Leave a reply

    Full Screen Popup Powered By : XYZScripts.com