Sweet Sound Memories: e a tua voz aos cinco anos?

4 Posted by - 26/04/2015 - #4, ano 2, Lilian Nakao Nakahodo

  • Em 2001, passei seis meses em Okinawa – uma ilha subtropical no extremo sul do Japão, que até o século XIX era um reinado independente. Com olhar de bolsista e descendente de okinawanos, registrei um pouco da minha rotina diária com um gravador de microcassete. Nessas fitinhas, tinha o encanto das primeiras impressões sobre um lugar em que tudo parecia singular, com uma carga extra de significado ancestral.  Sons de caminhadas pelo meu bairro, as crianças indo em bando para a escola, os matsuris, treinos de taiko e eisa, a voz dos ojisans no mercado… Horas de gravação num pacote extraviado pelos correios, antes de chegarem no seu destino brasileiro.

    Talvez eu nunca ouvisse aquelas fitas de novo. Mostrar para alguém, tampouco.  E na real, pensando bem, posso estar reinventando esses registros de cabeça, já que não estão aqui pra me contradizerem. Pois bem, a memória afetiva segue um caminho labiríntico que, de tempos em tempos, precisa ser revisitado. Nesse trajeto, acompanhados de sentimentos e emoções do momento, perdemos, filtramos, reinventamos e fazemos a manutenção das lembranças.

    Os aparatos “concretos” que podem auxiliar esse upgrade da memória são os chamados “patrimônios” materiais e imateriais, num nível coletivo e oficial: estátuas, livros, prédios, tradições gastronômicas, rituais etc. Para as nossas recordações pessoais, escrevemos diários, posts, fazemos check in nos lugares que passamos, tiramos fotos. São inúmeros os meios que nos ajudam a reviver lembranças.

    Quando o cassete começou a ser comercializado, no fim dos anos 50, seus criadores imaginavam que ele seria popularmente usado para o registro de momentos familiares especiais, como aconteceu com a câmera fotográfica. Mas de acordo com uma historiografia do gravador*, tais registros ocorreram apenas por um tempo, até se perceber a dificuldade de manuseio e compartilhamento dos retratos sonoros. Não era possível dispor os registros nas paredes da casa, e nem exibi-los com facilidade em encontros sociais. De fato, as fonografias e os souvenirs sonoros parecem continuar em um plano secundário até nossos dias: você lembra como era a tua voz aos cinco anos?

    Há aqueles que criaram o hábito de gravar sons por prazer, seja por ofício ou não. E quem tem o hábito de fazer registros sonoros de lugares e situações talvez concorde com Hildegard Westerkamp, compositora militante da ecologia acústica: o simples ato de gravar, quando envolve foco no que se está ouvindo, reforça a lembrança desse momento-contexto. Sabemos, pelo resultado de pesquisas e por experiência própria, que nossa capacidade de recordar estímulos sonoros é pior em relação à rememoração visual. No âmbito cognitivo, no entanto, o processo para melhorar a memorização é igual em todos os sentidos: é preciso, primeiro, prestar atenção, concentrar no que se deseja guardar e reforçar sensorial/sentimentalmente. E tal princípio condiz com a ideia de Westerkamp: com o manuseio de um microfone e o auxílio de fones de ouvido, os sons mais sutis, que normalmente deixamos como pano de fundo, podem ser descobertos e amplificados; basta prestar atenção, direcionar a audição e aproveitar. E assim, um lugar personalizado pela experiência individual é criado na memória, pela capacidade de uma escuta que é poética, aliada ao ato de gravar ativamente.

    Rememorar sons que nos afetaram, que não sejam partes de uma música nem trechos de um diálogo, não é uma tarefa fácil. Pelo menos é o que tenho percebido no processo de um mapeamento, aqui em Curitiba, em torno de memórias sonoras afetivas.  A partir de um roteiro de perguntas, tenho indagado pessoas que moram aqui há algum tempo sobre suas primeiras impressões sonoras da cidade, como ouvem o lugar em que passam mais tempo e em sua própria casa, bem como os sons que causam irritação ou prazer. Procuro deixar os entrevistados à vontade para associar, descrever e qualificar os sons e eventos sonoros da maneira que quiserem, porém, sempre indicando contextos, sejam eles espaciais, temporais ou sentimentais.

    As respostas não vêm prontas, e nem com facilidade. E penso que essa dificuldade pode ter três raízes: a primeira, o obstáculo em resgatar algo que talvez nunca tenha sido requisitado; a segunda, a falta do hábito, na vida diária, de prestar atenção em sons que não palavras e nem musicais; e a terceira, a pouca prática para qualificar e descrever objetos e eventos sonoros.

    Se você mora em Curitiba, ou já passou por aqui e guardou uma impressão sonora sobre lugares ou situações daqui, gostaria muito de te ouvir. Que tal participar desta cartografia? Estou também aqui: lilian.nakahodo@gmail.com

    Lilian Nakahodo

    * Para mais informações, o site do projeto Sound Souvenirs apresenta os resultados da pesquisa sobre tecnologia sonora e estudos culturais, acesse aqui.

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    2 Comments

  • Julia Teles 27/04/2015 - 12:35 Reply

    Lilian, gostei muito do texto.
    Você acredita que recentemente achei uma fita cassete que mostra minha voz aos 5 anos? Não fosse a fita, ou algumas filmagens, eu com certeza não lembraria. Nela, eu tô cantando umas músicas de natal bem desconhecidas, não consegui me lembrar delas de jeito nenhum. Eu morava em Curitiba na época. Eu não consegui diferenciar a minha voz e a da minha irmã, mas minha mãe diferenciou com toda certeza.

    Vou pensar em Curitiba e nas minhas memórias auditivas daí e te escrever. :)

    Beijo,
    Julia

    • Lilian 14/05/2015 - 22:32 Reply

      Julia! senti falta do teu texto nesta edição..
      que engraçado essa coisa das músicas cantadas, gravadas e não recordadas :)
      quando você tiver vontade, grava um depoimento pra mim sobre suas lembranças sonoras aqui em Curitiba.. vou incluir no mapa!

      beijo

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