Casquinha

5 Posted by - 26/04/2015 - #4, ano 2, natália keri

  • Nesta nova série, Natália escreve a partir de fotografias de amigos. Se antes o desafio estava em escrever o sonoro, ou ao menos aquilo advindo do sonoro (passando, é claro, pelos filtros próprios da autora), desta vez o jogo se dá com a poesia da fotografia, e com os desencontros dos filtros pessoais, ao convidarmos um músico para fazer uma música a partir das mesmas fotografias e ver no que que dá.

    Hoje, a partir da foto Banderóis de Beatriz Reis Moura.
    E com a música Estrada de terra de Caio Kenji.

     

    Casquinha, de Natália Keri

    O marrom-vermelho do terreiro nunca desgrudou da sola do pé, por mais que a minha mãe fizesse a gente esfregar com a bucha até o joelho antes de entrar em casa. Sempre ficava um pouquinho que sujava o lençol, que ela se punha quarar para apagar todos os problemas do mundo.

    Mas ficou uma casquinha de barro para sempre no meu pé. A velha ia ficar doida de raiva, a puxar as orelhas por tamanho desleixo do moleque. Mas é isso mesmo: levo o terreiro para tudo quanto é lado e cada caminho é percorrido a partir do terreiro, com ele e com seu consentimento.

    O tapete macio, a areia, o mármore e a madeira nunca sentirão a pele do meu dedão, somente o granulado, o marrom, o vermelho, a lama, o sujo. A raiz que meti na terra batida fixou minha perspectiva, mesmo que finos galhos se mostrem à luz.

    Banderóis, de Beatriz Reis Moura

    Beatriz Reis Moura (foto) é paulistana e se formou em audiovisual e intercala aulas de mestrado, sets de filmagens, sessões de fotos e viagens.
    Caio Kenji (música) é artista sonoro, trabalha com instalações interativas, arduino, processing e pura data. Já se apresentou em concertos de improvisação livre e live coding. Gosta de fazer bugigangas com circuitos eletrônicos e eventualmente compõe músicaslinda.nmelindo.com/author/caio

     

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