A precificação

6 Posted by - 26/04/2015 - #4, ano 2, tiago de mello

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    Não! Você não está no texto errado. Nem eu errei o vídeo para abrir meu texto dessa edição da linda! Aliás, recomendo que você assista ao vídeo lendo o texto, no possível, ou que o assista antes de ler o que eu tenho a falar sobre ele…

     

    Preâmbulo

    Gosto muito de futebol americano, e há alguns anos acompanho a NFL. A NFL organiza o seu campeonato em três fases: na pré-temporada, os times fazem amistosos, alguns deles fora dos Estados Unidos, visando popularizar o esporte e a sua liga profissional; então começa a temporada regular, com os times divididos em grupos, jogando para conquistar pontos (vitórias – talvez você saiba, mas na maioria dos esportes americanos não há empate); por fim, na pós-temporada, os times com mais vitórias dentro de seus grupos são postos a jogar contra os outros, em confrontos eliminatórios, culminando num jogo entre os dois melhores times, que decidem o vencedor da temporada em um jogo único, valendo o tal Super Bowl.

    Poderia me alongar sobre a organização da NFL, de como seus times funcionam como franquias (menos um!), mas voltemos ao assunto do preço.

     

    O intervalo

    Os jogos de Futebol Americano são conhecidos pelo número de interrupções televisivas. Nada raro, as transmissões chegam a mais de duas horas, sendo que o jogo “jogado” consta de 4 períodos de 15 minutos. Jogos da liga universitária chegam a três horas de transmissão facilmente.

    Uma dessas interrupções, a maior delas, é como a do nosso futebol: o intervalo de meio-jogo, de 15 minutos, em que os times vão para os vestiários, podendo descansar e se reorganizar taticamente. E, desses intervalos de meio-de-jogo, nenhum deles é mais importante que o intervalo do Super Bowl: maior evento televisivo do mundo, o Super Bowl é a jóia dos olhos de qualquer anunciante. Basta entendermos que, das 10 maiores audiências da história da TV norte-americano, 9 foram Super Bowls.

    E, diferentemente dos intervalos ordinários do futebol americano (em que os comentaristas tecem críticas aos times), o Super Bowl recheia-se com um show de música e com anúncios. É quase como um evento a parte: o show do intervalo do Super Bowl chega a ter mais audiência do que o próprio jogo. Ele também tem sua própria venda de naming rights e a sua própria estrutura. Se você procurar por “Super Bowl 2015” no Youtube, as primeira recorrências serão do show da Katy Perry, e não do jogo. E enfim, pra quem ainda duvida da grandiosidade de um Super Bowl, e deu seu intervalo: https://www.google.com.br/webhp?sourceid=chrome-instant&ion=1&espv=2&ie=UTF-8#q=super+bowl+em+n%C3%BAmeros

     

    A polêmica

    Os maiores nomes da indústria da música já se apresentaram no show do intervalo, que acontece anualmente desde 93. Michael Jackson, Madonna, U2, Paul McCartney… A história do show do intervalo é, de certa forma, a história da indústria da música (contada por um filtro especial, claro). E a indústria da música é feita de produtos: Michael Jackson, Madonna, U2, Paul McCartney…

    Apresentar-se no intervalo do Super Bowl é um dos maiores anúncios para um produto musical. A matéria da ESPN Brasil fala um pouco sobre isso: a venda da música do Black Eyed Peas aumentando mais de 300% depois da apresentação, Paul McCartney aumentando 60% a venda de música dos Beatles e o U2 saltando 100 posições no ranking da Billboard…

    Bem, a polêmica é a seguinte: ao que consta, nenhum artista que se apresentava no Super Bowl recebia cachê artístico. O cachê seria a própria visibilidade e divulgação do seu trabalho, como uma forma de investimento em marketing. Porém, nesta última edição, houve uma mudança significativa: o artista que fosse convidado a se apresentar no Super Bowl deveria dar uma “contribuição” à liga. Ou seja: além de não receber para tocar no intervalo do jogo, deveria ainda pagar por isso.

    No fundo, no fundo, não é uma história nova: o jabá é estabelecido nas rádios brasileiras, por exemplo; ou seja: mesmo que as músicas sejam “a cereja do bolo” das rádios (na verdade, seriam a própria massa do bolo, porque sem as músicas não haveria a rádio!), quem não paga dificilmente é exibido, sobretudo em horários mais nobres.

     

    A indigência e o que isso tem a ver com a tal cultura eletroacústica?

    Alguns vão analisar que a posição “submissa” da Katy Perry (não só dela, que fique claro: decisões como essa passam por um sem número de empresários, marketeiros e afins) frente à exigência “absurda” da NFL representaria o estado de indigência da arte no contemporâneo. Outros dirão que foi uma ação estratégica dela e de seu estafe, considerando a tal “contribuição” um investimento de curto ou médio prazo (assim como pagar jabá para ir no Faustão – a diferença é que o Faustão não é assistido por 160 milhões de pessoa ao redor do mundo…).

    Mas o que isso tem a ver com a tal cultura eletroacústica?

    Nesse último mês fui questionado (e não pela primeira vez) se eu (eu mesmo, o Tiago de Mello) não acharia justo que os autores da linda recebessem pela sua contribuição aqui. Fiquei muito chateado.

    Primeiro, porque a retórica da pergunta me faz supor que sou (somos) visto(s) como explorador(es) de talentos alheios. Parece que capitalizamos em cima das ideias e dos textos (fantásticos, devo dizer) que esses 15 autores colocam aqui todo santo mês.

    Segundo, porque eu já havia explicado que, infelizmente, o dinheiro que passa pela revista inviabiliza qualquer tipo de pagamento: até hoje (1 ano e pouco), via edição online nunca tivemos nenhuma entrada financeira, e os custos (relativamente baixos) são bancados pelo NME (hospedagem, design e afins); já a edição impressa mal pagou a sua própria impressão… Fazer aquela pergunta pra mim, conhecendo a nossa realidade, foi de uma injustiça muito grande, me parece.

    Quem me fez essa pergunta, logo em seguida, me disse que se recusaria a escrever para a linda, porque não aceitaria trabalhar sem receber. E que era contra que outros o fizessem.

    Bem, o Sérgio Abdalla é editor da revista aqui, e trabalha sem receber nada, dias e dias, revisando os textos, cuidando do editorial, das ilustrações… O Luis Felipe Labaki cuida da nossa edição bilingue e está na mesma situação…

    Não que isso sirva de desculpa para me “aproveitar” dos nossos queridos autores: adoraria, sim, pagar por todas as suas participações lindas; adoraria ter um plano de mídias mais eficiente que me fizesse gerar dinheiro com as exibições aqui e, assim, repassar aos escritores; adoraria que fosse mais financiável um projeto como o nosso, e que não dependêssemos tanto do empenho não-remunerado desse grupo de pessoas ótimas que escreve aqui nesses 16 meses.

    E que isso não sirva de desabafo, muito menos de comparação entre a linda e o Super Bowl! Antes, gostaria de discutir formas de organização mais vantajosas nas artes experimentais e menos conflituosas.

     

    E você, o que faria?

     

    Tiago de Mello

    Continue lendo!

    1 Comment

  • Natália Keri 07/05/2015 - 14:00 Reply

    A questão do trabalho anda muito embolada hoje em dia. Muito porque em algum momento inventaram a utopia de que as pessoas têm que amar seus trabalhos (a ponto de nem sentir que estão trabalhando). O que acontece é que não tem por aí tantos trabalhos tão assim amáveis. Mesmo quando se faz o que se gosta, todo cotidiano tem dificuldades. Ao mesmo tempo, apresenta-se o trabalho (e a remuneração obtida com ele) como a fonte básica de realização e satisfação (ser bem-sucedido). Tá pronta a confusão e as frustrações, daí… Misturou muito o meio de campo entre trabalho e atividades-que-fazemos-para-satisfação-pessoal (achei que lazer não encaixava muito bem)

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