A (in)consciência do ruído e suas consequências acústicas*

4 Posted by - 26/04/2015 - #4, ano 2, bruno fabbrini

  • A consciência do ruído, a inconsequência acústica

    ou

    a (in)consciência do ruído e suas consequências acústicas*

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    Torres gemeas

    ……

    Quando a noite cala, a intensidade do uivo (contínuos, incessantes) diminui e nossa audição fica mais aguçada. Dá pra escutar o barulho da torneira do vizinho, o homem solitário caminhando na rua e os carros estacionando em frente ao prédio. Ouvimos melhor – pior ouvir? – qualquer som que no calor do dia passa desapercebido. Porém, a noite da qual vou falar foi diferente. Bem diferente.

    ……

    Pense rápido, imagine propor a experiência em seu bairro e arredores para todos moradores sairem na janela as 19h de um domingo e se manifestarem acusticamente por meio de qualquer meio propagador de som, protestando contra o stress e os problemas cotidianos. Que fizessem um enorme barulho e, pouco a pouco, fossem gradualmente aumentando sua intensidade durante um período de 30-40 minutos, chegando ao ápice e depois fossem progressivamente saindo da brincadeira, até que nada – ou quase nada – restasse.

    Será que haveria alguma adesão, além de você e dois amigos, talvez três, entrando na onda? Provavelmente haveriam mais gritos de calem a boca, multas de condomínio e problemas com a vizinhança querendo ver fantástico.

    Não nessa noite. Nela, onde o cidadão do tipo mais comum – e ordinário – criou, à sua própria sorte, e sem plena consciência, um movimento musical experimental, com graus de intensidade e dodecafonia exóticos e belíssimos, numa resolução em que uma insatisfação generalizada acabou por se transformar numa manifestação ensurdecedora, fragorosa, vinda do íntimo de cada um de seus performers,  passagem do impulso não verbal para o acústico, melódico, desarmônico e rítmico,
    São Paulo compondo às avessas uma impossível sinfonia à revelia do saber que a produziu.

    ……

    Volto um pouco, vamos pra outro lugar. Nesse lindo vídeo datado de 1969 dois senhores ingleses com penteado distinto, um apresentador e um educador, apresentam ao mundo suas crianças musicais. Crianças estranhas. Crianças experimentais. Não se trata de algo excepcional por virtuosismo, talento ou bizarrice, mas de uma escola de música experimental para crianças. Nela crianças exploravam instrumentos e sonoridades de forma inconvencional, aprendiam a usar aparatos técnicos (na época a tecnologia eram os gravadores de rolo) e a manipular sons, seja alterando parâmetros de intensidade ou ADSR. Mais do que qualquer outra coisa, as crianças aprendiam a se relacionar sonoramente com o mundo, pudessem elas tornarem-se o que se tornariam, e então teriam uma boa propriedade da própria escuta e do mundo ao redor.

    ……

    Salto. 2015. O Brasil não tem em seu currículo fundamental o ensino musical obrigatório, nem qualquer outro (grande/conhecido) projeto extra-curricular como escolas de música voltadas para experimentações musicais (sobrevivemos, felizmente, graças a algumas iniciativas universitárias e de pequenos grupos independentes. A enunciar, cá estamos NMEs lindos!, como um deles).

    A maioria do país, com toda sua riqueza em termos de cultura/música popular e inventividade, segue formalmente ignorando a arte da escuta e suas riquezas. De fato, seguimos – talvez por falta de matéria prima formal/educacional e do modus operandi brasileiro – construindo gambiarras e abusando da inventividade, o quê é ótimo em inúmeros aspectos de nossa singuralidade, mas é possível e preciso ir além desse estágio, adquirindo maior propriedade do sentido auditivo e suas possibilidades acústicas, a começar pela consciência sonora como algo (bem) anterior as tradicionais definições musicais.

    ……

    Penso em Russolo, em Cage, no cotidiano e no espaço sonoro que transpassa as barreiras físicas, invadindo ouvidos alheios e ocupando suas cabeças noite e dia. Na transformação rítmica do som em substâncias químicas devolvendo parte dessa energia para o corpo e ajudando-no a se locomover, nesse espaço de corpos se chocando que são as cidades. Na consciência da escuta e na absorção de suas nuances, física e mentalmente. Na impossibilidade de absorção do excesso desses estímulos até que parte deles se transformem em dores de cabeça como resposta ao que não podemos filtrar, atacando nossos corpos até que adoeçam, consequência de ignorarmos toda essa potência sonora que nos cerca e, em especial, a dessa noite.

    ……

    Instrumentos listados para panelaço experimental:

    buzinas,

    cornetas,

    motores,

    panelas e frigideiras de todos os tamanhos, formatos e materiais (tefal, cerâmica, alumínio, ferro, cobre)

    colheres, garfos e facas!

    gogós afinados e desafinados em

    baixos, barítonos, tenores, contraltos e sopranos,

    rojões e pássaros mecânicos

    …….

    …….

    A sinfonia ignorada- luminosa em sua inconsciência- foi gravada na noite de 15/03/15 e diretamente motivada pela crise política que toma conta dos noticiários. Não há, da minha parte, qualquer intenção de manifestação política/ideológica por trás da gravação, mas total interesse nas suas consequências acústicas, na escuta e no experimento coletivo feito pela população em sua caótica riqueza.

    Realizada da janela de quarto que dava para a rua, pelos dois canais internos do gravador (XY & direcional) só fui escutar o resultado alguns dias depois, transferindo o material para o computador. Tomei um susto bem grande pela sua dimensão (física, um espaço aberto cercado por grandes avenidas e pequenas ruas da vizinhança ressoando) e desenvolvimento sonoro. De vez em quando, coloco pra tocar na surdina enquanto alguma visita chega e as pessoas não compreendem de ‘onde vêm esse som’ e perguntam: O que está acontecendo? Não sei dizer ao certo, nem de onde vem, pra onde vai, se vai, mas tinha vontade de ver mais gente saindo às ruas e janelas com alguma frequência pra fazer uma ode à cidade, ode à alegria (nossa 9ª?), ode ao ódio, ou a que quer que fosse, através da recomposição desses sons ordinários, que tanto escutamos, fazem parte do vocabulário, e solenemente ignoramos no dia dia.

    Um brinde ao caos e ao desconhecimento dos que, ignorando-a enquanto tal, a compuseram!

    ……..

    * Corresponde essa sinfonia a uma pichação?

    ……..

    bruno fabbrini

    2 Comments

  • Lilian 14/05/2015 - 21:48 Reply

    Fantástico, Bruno! Arrepiei ouvindo a sinfonia.
    Tive a mesma sensação de encantamento no último panelaço, que me pegou totalmente de surpresa andando de bicicleta as 9 da noite, em uma das avenidas mais movimentadas de Curitiba. O som foi me acompanhando e vinha de todos os lados, e eu pensava que aquilo era mais fantástico que o efeito sonoro dos jogos do Brasil nas Copas do passado (que eu trouxe num texto do ano passado).

    O vídeo das crianças é muito bacana, dá vontade de mostrar pra várias pessoas. Tem um compositor argentino, o Mario Mary, que faz um trabalho similar com crianças e criação de música eletroacústica lá no conservatório de Mônaco. Tem um pouco sobre a metodologia dele num outro texto também: http://linda.nmelindo.com/2014/09/cultura-eletroacustica-desde-cedo/

    beijos!

  • Bruno Fabbrini 15/05/2015 - 11:20 Reply

    Pô, Lilian, que massa!!
    Eu li o texto do futebol e alucino quando as paisagens que nos cercam ganham voz, especialmente nessas ocasiões que chegam de surpresa e mudam o dia, ou a vida.

    Vou dar uma olhada no trabalho do Mario Mary, que não conheço (legal!) e, aproveitando, mês que vem também vou colocar alguns resquiços de Okinawa no meu texto. Gostei muito da sua proposta e as histórias da ilhazinha, tenho dois grandes amigos, músicos talentosos, que são descendentes de lá e sempre se referem a Okinawa com afeto e admiração (um conhece a ilha e o outro só parte de suas histórias contadas pela família) e faz um bom tempo que tenho vontade de conhecê-la, vamos ver quando dá.

    Bjo!!

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