Um som malvado amenizado

3 Posted by - 30/03/2015 - #3, ano 2, luis felipe labaki

  • Há alguns anos perguntei para o Tiago qual era o som mais malvado que ele já tinha escutado em uma música. Não sei se ele mudou de opinião nesses últimos tempos, mas a resposta dele na época foi que o som mais malvado de que ele se lembrava era um ruído metálico agudo que aparece no começo e em alguns outros momentos da peça Orient-Occident (1960), do Iannis Xenakis.

     

     

    (Sobre o que é um som malvado e assustador para mim, escrevi aqui na linda há bastante tempo.)

    Eu também acho Orient-Occident um tanto assustadora. Gosto dela. Quando a escutei pela primeira vez, não sabia que ela havia sido composta – em uma versão mais longa – para um filme de 1960 com o mesmo título, dirigido por Enrico Fulchignoni. Depois que descobri, também demorei bastante tempo para resolver procurar o curta, e só recentemente o encontrei online no site do INA.

    Se eu tivesse escutado a música do Xenakis inicialmente assim, como trilha sonora, provavelmente não a teria achado tão assustadora ou malvada. Ela teria me chamado a atenção em alguns momentos específicos do filme – aqueles nos quais ela mais se afasta de um comentário mais ou menos direto sobre a imagem – mas talvez apenas isso. Me surpreendi com esse contraste de impacto, que acho que não tem a ver apenas com o fato de eu já conhecer a peça.

    Pensei, então: a música do Xenakis é melhor que o curta. Orient-Occident, a peça eletroacústica de Xenakis, é melhor que Orient-Occident, o filme de Enrico Fulchignoni. Acho que sim.

    Mas há ainda outra diferença: Orient-Occident, a peça eletroacústica, talvez seja melhor que Orient-Occident,  a trilha musical. Esta última é provavelmente uma boa trilha, uma trilha justa, “adequada”, com alguns momentos surpreendentes. Mas muito daquilo que me assombra, move, intriga etc. na peça eletroacústica – e talvez especialmente aquilo que mais assombra, move e intriga na peça – acaba desempenhando um papel referencial no filme, por vezes quase ilustrativo – digo quase porque, de ilustrativo mesmo, acho que só há um momento, quando instrumentos percussivos na peça acompanham uma estátua de um conjunto de músicos. Alguns objetos sonoros tornam-se quase banais, pela mudança de contexto. Eu poderia falar também que é culpa da narração que há por cima de tudo, não fosse pelo fato de que não faz sentido falar em culpa: a música do Xenakis estava lá para ser isso mesmo, uma música de acompanhamento que, a não ser em alguns planos específicos, se mantém no pano de fundo. Exigir que se excluísse a narração para dar espaço à música seria encomendar outro filme.

    O curioso é que, se me perguntassem para qual filme eu indicaria a música do Xenakis como trilha, eu nunca sugeriria um filme burocrático como esse. Se é para falarmos de estátuas e de filmes institucionais, talvez eu tivesse chutado algo como “Les Statues Meurent Aussi” (1953), de Alain Resnais e Chris Marker, que por sua vez está muito bem com a música orquestral de Guy Bernard.

     

     

    De todo modo, por mais que eu prefira a música do Xenakis como peça eletroacústica, a ideia de encomendar uma peça de música concreta para um filme como Orient-Occident não deixa de ser curiosa. E por mais que alguns sons usados por Xenakis fossem novidade no contexto musical e apenas parte do repertório habitual de efeitos sonoros no cinema, o mais esperado para um filme como esse de Enrico Fulchignoni talvez fosse justamente algo como a música do filme de Resnais e Marker – que por sua vez, como filme, é mais interessante que Orient-Occident.

    Ou seja: o filme é mesmo melhor do que poderia ser, por conta da trilha de Xenakis – e, bom, se eu fui atrás do filme, foi também por conta da trilha -, mas além disso ele serve de exemplo de um uso  de música “experimental” na virada das décadas de 1950-1960 que sai do clássico theremin + ruídos sintetizados em ficções científicas:

     

    Pensando nisso de “a música do filme, fora do filme, é melhor que o filme”, passei por uma outra experiência parecida recentemente, mas no teatro. Fui assistir a uma versão ucraniana de Woyzeck (como o Sergio Abdalla achou bom lembrar, o texto do Büchner, não a ópera do Berg!) que veio para a Mostra Internacional de Teatro de São Paulo. Sem pensar muito a respeito, minha reação imediata ao sair foi pensar que “o som da peça é melhor que a peça em si”, o que pode ser um grande contrassenso, porque o som da peça não existiria sem a peça.

    Mas no fim das contas, isso não passa de uma estratégia de apreensão, de uma decisão que se toma como espectador de alguma obra: me diverti muito mais me concentrando apenas nos ruídos exageradamente altos, artificiais e repetitivos dos ventos, dos cassetetes, das armas laser e dos passos dos personagens que andavam durante muitos minutos pelo vácuo sideral do que prestando atenção numa cena metafórica meio besta em que uma mulher gorda segurava a bandeira da Ucrânia e desfilava de calcinha e sutiã na frente de homens portanto as bandeiras da Rússia e de países “ocidentais”.

    No fim, vi uma ótima peça de teatro, se encarada como uma peça acusmática.

    Luis Felipe Labaki

     

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