tela de música

4 Posted by - 30/03/2015 - #3, ano 2, sérgio abdalla

  • Fazer música que se apresenta num arquivo de áudio digital, hoje, é nossa prática comum, nós, os pertencentes por nascimento ou adesão à época da música no computador.

    O arquivo de áudio é um pouco como tela, em pintura. É o meio que mais participa do senso comum do que é o estado da arte. O que é uma música? Isso aqui: um arquivo. Baixe a música nova do. E também é, como a tela, um meio que os artistas que buscam novos meios frequentemente vêem como conservador. E é conservador em vários sentidos, um deles sendo que ele realmente é uma conservação dos dados para reprodução infinita, conservação para capitalização.

    Mas falei da tela também porque fazer música em arquivo de áudio tem a ver com termos uma suposta superfície lisa incolor (o áudio zero, uma série de zeros escritos) que seria neutra. E que nunca é neutra (por que estamos apresentando música gravada numa situação pública? por que você não toca ao vivo? por que não se gravou em formato analógico? …), sempre tem alguma tomada de posição. E nesse caso a tomada de posição é por um fazer música próximo da nossa vida comum na internet no computador no trabalho no mundo – a parcialidade de fazer música com o nosso material mais comum na vida, o arquivo digital. Aqui, já não tem nada a ver com a tela de jute, lona, sei lá, não sei do que é feita.

    Mas a superfície aparentemente neutra onde pintamos algo, ou desenhamos ou colamos ou riscamos ou rasgamos ou sujamos ou ignoramos algo, essa superfície é importante. A dobra reflexiva sobre a presença e o condicionamento do suporte é algo que, em artes plásticas, já foi, é isso que a gente aprende na aula de artes. Já foi há muito tempo. Em literatura, poesia, idem. Em música também: cortar colar pedaços de papel partitura, gravar o som de uma gravação de disco, sonorizar erro digital, tudo isso já conhecemos. Não quer dizer que tenhamos absorvido e interpretado, não mesmo, mas conhecemos. Isso não proíbe as pequenas reflexões, as pequenas metalinguagens, e na verdade as libera. A grande questão de perceber que o arquivo é um arquivo já está colocada. Temos o espaço, sim, de todas as pequenas reflexões cujo significado histórico é confuso e difuso.

    Fazer, agora mais especificamente, música acusmática (clique aqui)  também é algo que já foi. Prefiro me isentar de definir essa palavra pedindo aos leitores que acessem o link acima com uma definição desse nome (e é algo a se pensar que nossa wikipedia em português sobre o assunto seja tão…vazia). Sei lá, anos 60 França, Europa, já foi. Então é algo que não está sendo levado pela torrente de inovação e novidade e projeto de mudança.

    Acho que pode ser tão ingênuo e politicamente covarde quanto – mudando da comparação com a tela para uma com a folha – desenhar num caderno. Covarde, se subtrai à apreciação pública como tentativa de mudança do mundo. Ninguém vai mudar o mundo com um arquivo. Nessa subtração à política tem uma tematização da própria vida íntima com os sons. Acho que fazer música acusmática, principalmente fazer em casa ou em ambientes não profissionais (ambientes que não estúdio de música eletrônica, e temos muitos pelo mundo) pode ser visto como uma atividade de desenho. Não é à toa a associação do nome sound design com o que o músico eletroacústico faz. Ambos vivem no ambiente de sons e técnicas consolidados por uma certa música de vanguarda do meio pro fim do século passado sem, contudo, acreditar mais na necessidade histórico-evolutiva dessa prática. Talvez acreditando mais na necessidade presente, necessidade de responder ao mundo sem saber o sentido disso, necessidade de desenhar esses sons que vêm o tempo todo ao nosso encontro.

    Necessidade de ir de encontro aos sons, também. Bater cabeça com os sons que o tempo todo vêm, sem, contudo, dar uma resposta heróica, ou à altura. Sempre dando uma resposta tímida, um arquivo de áudio.

    Sérgio Abdalla

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