O compositor como coreógrafo – dilemas binaurais.

1 Posted by - 30/03/2015 - #3, ano 2, alessa

  • Tenho passado um tempo experimentando com gravações binaurais. Para aqueles que não conhecem este tipo de técnica, trata-se de uma gravação stereo na qual usamos microfones dentro do ouvido como se fossem fones. Mas ao invés de ouvir, estamos gravando. O resultado é uma espacialização bem fidedigna com o que realmente escutamos.

    O que me atrai neste processo é a possibilidade de “encarnação” na escuta do outro, dissolve-se o limite entre conteúdo e conteiner, assim como os limites entre eu e você.

    No entanto, o que quero tratar aqui não está relacionado somente aos fenômenos de propriocepção que o binaural propõe, mas sua relação com o espaço físico e imagético.

    Nossa escuta funciona literalmente como um sonar. O som das coisas nos diz muito sobre o espaço que estas ocupam. Penso que ao te ouvir, vem registrado na tua voz não somente quem você é, mas onde você está. E onde você está diz muita coisa. Porém gostaria de deixar a voz de lado, mas prometo um outro texto ligando escuta binaural e voz para mais tarde. Quero me concentrar apenas no espaço.

    Ao editar minhas gravações binaurais, me encontro quase que todas as vezes construindo lugares. Qual escolha seguir? Vou para uma linha documental, de registro real daquele lugar por onde passei, ou sigo na criação de um meta-espaço?

    Caso aceite a primeira opção, me confronto com uma segunda pergunta. Como ser específico, quando cada vez mais os lugares soam iguais? Sons de carros, do trânsito, das construções e da pressa cotidiana é hoje a paisagem sonora vigente. A cidade a cada dia soa igual. E não é a toa que campos da área de estudos do som como a Ecologia Acústica sejam tão necessários frente a homogeneização de nossos estímulos sonoros.

    Debruço-me sobre a segunda opção: os meta-espaços. Tento sobrepor espaços diferentes, uma acústica sobre outra… o resultado é interessante, mas a escuta é cruel. Ela me revela as “colas”, me aponta exatamente onde foi que eu “roubei”…

    Se alguém tem dúvida do quanto nosso ouvido é um instrumento incrível, sugiro ouvir uma gravação com vários ambientes e submetê-la a um teste. Ela é implacável.

    A investigação continua, mas tenho um palpite. Quando se trabalha com binaural, material no qual o espaço se expressa tanto e de maneira tão reveladora, o compositor precisa encarnar o coreógrafo.

    A dança expõe o espaço ao teste da visão, ela organiza o lugar. Acredito que ao substituir o corpo pelo som estou mais perto do resultado que quero. Preciso coreografar o movimento entre estes lugares e enganar a escuta.

    Ps: depois que eu terminar este projeto, estarei a procura de coreógrafos que queiram investigar algo no estilo.

    Alessa

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    2 Comments

  • Julia Teles 11/04/2015 - 17:11 Reply

    Eu fiquei com vontade de ouvir esses sons “colados”, sobrepostos, que soam artificiais. Se vc tiver algum arquivo, poderia colocar aqui pra gente escutar :)

  • Daniel Kairoz 14/04/2015 - 02:10 Reply

    oi Alessa
    uma amiga me enviou seu texto
    sou coreógrafo e isso tudo muito me interessa
    bora falarmos com calma?

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