Guitarra de compositor

3 Posted by - 30/03/2015 - #3, ano 2, tiago de mello

  • Meu último texto aqui na linda falou da importância que eu dava ao botão EDIT do meu primeiro teclado para “transformar” os timbres oferecidos. Falei ainda de como meu desenvolvimento tecladístico fracassou, tendo me tornado um violonista anos depois.

    Hoje, gostaria de falar sobre esse tal desenvolvimento violonístico, uma vez que, como o tempo mostrou, acabei não me tornando um violonista propriamente dito, muito menos um guitarrista.

    Ganhei meu primeiro violão com uns 10 ou 11 anos e tive as primeiras aulas na igreja da rua (embora não sejamos católicos na minha casa, nem fôssemos aos cultos, a irmã da minha avó me indicava as atividades que aconteciam no salão paroquial aos sábados de manhã). As aulas se interromperam algumas semanas depois, e passei meses comprando revistas de cifras do Legião Urbana nas bancas, ampliando cada vez mais meu repertório de acordes e batidas!

    Entrei, depois, num curso propriamente dito de violão e, por 2 anos, desenvolvi-me como violonista popular (lia crifras) e depois, por mais uns 2 anos, como violonista erudito (lia partituras).

    Em meio a isso, fiz aulas particulares de guitarra. E passava horas no meu quarto com minha guitarra (não lembro qual foi a primeira, mas a primeira melhor que tive foi uma Epiphone Sg Pierced!), meu amplificador Meteoro e minha pedaleira Zoom 505 II. Quem hoje grava sons com o Zoom H4n e não usou uma Zoom 505 II não deve entender muito de onde aquilo veio.

    A 505 II era a pedaleira da hora, com uns 60 efeitos de fábrica, dois pedais para mudar os efeitos (o tal botão EDIT do meu Casio!) e melhor: cheia de menus internos! Naquela época a internet já estava consolidada (discada mas estava) e se podia procurar por patchs de efeito dos grandes guitarristas nas comunidades musicais. Ou seja: além de a internet te fornecer as tablaturas das músicas dos seus ídolos, ela ainda ensinava a emular seus efeitos naquele pequeno artefato musical.

    Dei uma procurada nesses fórums e descobri que eles ainda existem. O primeiro resultado do Google leva para o Zoom 505 Central, que conta com acervo de 539 efeitos catalogados, sendo que as últimas inserções são de 2 semanas atrás!

    http://www.safaricomputers.com/505apagar guitarra2

    Na minha formação, tenho certeza, passei mais tempo mudando os efeitos da minha pedaleira do que treinando escalas. E, desde que me tornei “compositor”, voltar à guitarra sempre parece ter resquícios dessa relação. Mas não: não vejo minha obra para guitarra como algo completamente cheio de efeitos de toda sorte… Pelo contrário! Olhando para trás, todas minhas obras que usam guitarra, ou violão, usam-nos da maneira mais crua e naïfy possível.

    Fazendo uma análise em retrospectiva, penso que isso possa ser causado pelo fato de, em algum momento, os efeitos da minha guitarra juvenil terem se emancipado e virado a minha música eletroacústica ela-mesma. Do outro lado, o que eu tocava e era encoberto por uma multidão de efeitos (e que era, muito por conta disso, muito ruim do ponto de vista guitarrístico) foi, aos poucos, se descobrindo e se aceitando!

    Gostaria de deixar aqui algumas coisas que venho fazendo com guitarra nos últimos tempos. Espero que possamos falar sobre isso à luz da guitarra-ela-mesma e da música de hoje.

     

    Pato Rei

    Composto para o concerto NME11, o Pato Rei é uma obra com a qual vim trabalhando nos últimos tempos. Além de contar com trechos da minha Sinfonia com as garotas (não fique assim Tiago!), composta para e interpretada pela Orquestra Sinfônica da Unicamp, e poeminhas de decepção amorosa cantados por mim ao vivo, também utilizo trechos de gravação de improvisações à guitarra. O que mais chama atenção aqui, do ponto de vista guitarrístico, é que a guitarra foi gravada acusticamente: ao invés de ser gravada em linha ou amplificada, a guitarra foi gravada com apenas dois ou quatro microfones posicionais perto do seu corpo de ressonância, e o arquivo não recebeu nenhum tratamento: ouve-se a guitarra tal qual ela é (ou poderia ser). Aqui um pequeno trecho:

     

    Missa

    Fiz, em 2010, uma obra chamada Missa, para eletrônica e a guitarra do Sérgio Abdalla. A guitarra soava sobretudo na segunda parte da tripardida obra (que correspondida ao homem, dentro da divisão céu-homem-inferno). A parte instrumental foi composta utilizando auxílio de algoritmos bestas em MAX/MSP, que sorteavam sequências de corte em partituras dadas. Uma dessas partituras era o Libertango, do Piazolla. Fica aqui a interpretação do Sérgio (a quem agradeço muito!), na estreia da obra. (A parte do Piazolla começa em 11 min e 40 seg)

    Improvisações 2015

    Esse ano, comprei cordas flat pela primeira vez. Cordas flat (ou flatwound) são cordas com um acabamento diferente, que deixam os gominhos das cordas enroladas mais lisos. Isso acarreta em dois grandes fatos, para mim: uma sonoridade muito escura (contrastando completamente o timbre da minha telecaster) e, ao mesmo tempo, anulando o som de deslizadas no comprimento das cordas (que eram, em grande parte, o efeito que eu mais utilizada até então). Compilei alguns momentos dessas improvisações aqui:

     

    Tiago de Mello

    Continue lendo!

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