Conversa com Didier Guigue

2 Posted by - 30/03/2015 - #3, ano 2, conversa

  • Didier Guigue é musicólogo e compositor, professor na UFPB (Universidade Federal da Paraíba) e mora em João Pessoa. Sua música, considerada como uma das mais importantes na cena experimental brasileira, percorre caminhos complexos entre música acústica, eletrônica, eletroacústica, computer music, rock progressivo, referências afro-brasileiras e de outras culturas. Em seu trabalho acadêmico, dedica-se a abrir novas possibilidades para a análise das músicas dos séculos mais recentes e de hoje, onde o som, por si mesmo, é o campo de criação principal.

     

    Daniel Puig:

    Hoje é  dia 16 de março de 2015 e estou aqui com Didier Guigue, francês, radicado no Brasil desde 1982. Acho que essa é a primeira pergunta, Didier, como é a relação com o Brasil? Como surgiu essa vinda pra cá?

     

    Didier Guigue:

    É, taí uma pergunta complicada, essa relação com o Brasil… com o que a gente viu ontem, por exemplo. [Referindo-se às manifestações do dia 15 de março de 2015.] De fato, é mais positivo do que negativo. Aprendi muito, principalmente pelo fato de ser emigrado, imigrante. Imigrante pra cá, emigrado pra lá, não sei como dizer. Não raramente, me vi em situações tendencialmente xenofóbicas, que podem aparecer aqui e acolá. Exclusões ou diferenciações, às vezes em sentido que você pensa positivo, mas que nunca são positivas… quando se diferencia uma pessoa nessa base. Mas, de uma forma geral, aprendi muito e me consolidei na minha própria personalidade, quem eu sou. Na verdade, o fato de viver tanto tempo num país estrangeiro, me tornou mais provençal [referindo-se à região localizada no sul/sudeste da França] do que era quando estava lá. Fui atrás das minhas raízes, das minhas definições, da cultura, do lugar onde nasci e, provavelmente, fiz mais depois de estar aqui, afastado, do que se não tivesse nunca saído. O mais positivo é que cheguei para preencher um espaço que estava disponível e me deram, na UFPB, praticamente carta branca para desenvolver toda essa parte a respeito da música do século XX. E, apesar dos poucos recursos, isso trouxe oportunidades que possivelmente não teria tido na França. Isso foi, globalmente, o positivo, mesmo.

     

    Didier, como você sabe, estou tentando conversar com pessoas que vivem a música eletroacústica no Brasil há mais tempo. Então, como é a tua relação com a música eletroacústica?

     

    Justamente, ela é interessante, porque é de um ouvinte. Eu escuto música eletroacústica, por gosto e prazer. Digo assim, procuro algumas rádios e podcasts na internet e fico ouvindo ou escuto alguns clássicos. Meu primeiro LP, ganhei em 1964, foi Variações para uma porta e um suspiro, de Pierre Henry, musique concrète. Desde então, sou um aficcionado! Gosto de me isolar, com meus fones, e ouvir aquelas grandes obras. Tenho ouvido Mathias Delplanque recentemente. Um jovem francês, que tem ainda essa cultura da música concreta, mas com elementos mais atuais, evidentemente. Enfim, eu acompanho. Minha função, meu trabalho profissional, é musicologia. Componho aqui e acolá, nas minhas horas, sem muito formalismo, sem muita teorização. Lancei um CD em 2012 [http://goo.gl/7IXr5Z]. É mais pra música eletrônica, ambient, lounge. Não se caracterizaria como música eletroacústica. Na verdade, eu não lembro quando foi que eu fiz, a última vez, alguma obra que pudesse ser catalogada como música eletroacústica. [Comentário sobre a apresentação de Color Digits, peça de 2000 – http://goo.gl/uvOzz8] Trabalho mais, atualmente, com performance, em tempo-real, improvisação… Ou seja, não se qualifica como composição. Prefiro me envolver em performances com dança, com outras coisas semelhantes ou algo no estilo. Estou mais nisso, há um ano ou dois.

     

    Com uma interação entre linguagens.

     

    Dança, teatro, imagens… exatamente.

     

    Você tem alguns grupos dedicados a isso, em João Pessoa.

     

    A gente tem um laboratório, que se chama Log3, que é, na verdade, uma configuração variável e é onde a gente aprofunda esse tipo de atuação.

     

    Então, as coisas que você faz com meios eletrônicos, você não considera música eletroacústica, mesmo sendo só com eletrônica… como é isso?

     

    Tem aquela definição, que pode ser contestada, não estou levantando bandeira, de que, música eletroacústica é aquela vertente com uma estética de concerto, erudito. Estou produzindo mais, a rigor, improvisações montadas e fixadas. [risos!]

     

    [Uma pergunta complementar, respondida a pedido, por e-mail.]

    Você usa meios eletrônicos como uma parte importante da tua música. Pode nos contar como eles entram no teu processo composicional, como você pensa eles em relação a ela?

     

    Os meios eletrônicos são a parte essencial, quase exclusiva da minha produção desde os anos 90. Música instrumental tenho feito apenas em projetos coletivos com o Compomus [http://goo.gl/4CdIXu] ou tenho reatualizado composições antigas, dos anos 70 ou 80, tal como Die Volksmilschserenade [http://goo.gl/ybxyLV]. Como já te falei anteriormente, não formalizo a minha estratégia composicional. De formais, bastam as minhas pesquisas no campo da musicologia sistemática [risos]. Geralmente, parto de algum ‘objet trouvé‘ (um som qualquer por aí gravado, meu ou disponível na net) ou a partir de experimentos avulsos, programando sintetizadores, criando sons complexos e evolutivos, que possam sugerir alguma estruturação musical per se [http://goo.gl/kWZVig]. Na verdade, tenho uma preferência por fazer música eletrônica produzida por síntese (como fica claro no meu último CD, A Eternidade Segundo Jeremias Vlodovstky — link acima). Diferente de muitos dos meus colegas, apaixonados por códigos, programas artesanais com janelas vazias quando abrem, gosto muito de programas comerciais que dão retorno gratificante rapidamente, são confiáveis a qualquer hora e tem interface bonita e funcional. Como falei, sou amador [risos]. Componho apenas por prazer hedonista, amo e curto a matéria sonora em si, sem grandes questionamentos teórico-estéticos.

     

    [Voltando à entrevista online.]

    Você deve ter vivido algumas histórias com música eletroacústica aqui no Brasil. Você recorda de alguma experiência que te marcou de alguma maneira ou que você gostaria de contar pras pessoas? Talvez de algum concerto, um episódio com alguém?

     

    Lembro que o Log3 teve a primeira atuação em 2005, na inauguração da RNP, Rede Nacional de Pesquisa — um sistema de baixa latência de transmissão de dados complexos —, que foi desenvolvida aqui na UFPB. No projeto de lançamento, pra demonstrar a baixa latência do sistema, tinha uma reunião em Brasília, a gente aqui na UFPB e o grupo de dança experimental da UFBA, na Bahia. Nós tocávamos, os dançarinos dançavam e todo mundo via isso lá em Brasília. Só que, na prática, os bailarinos não ouviam a gente, e a gente não via os bailarinos. [risos] Não funcionou!

     

    Você poderia falar um pouco mais da tua pesquisa? com timbres, análise e que leva em conta a questão do objeto sonoro, também…

     

    Na verdade, me volto para aquela vertente musical, onde o som se torna um elemento fundamental, mais estruturante que a nota. Isso diz respeito, inclusive, à música eletroacústica, embora não tenha me aprofundado nisso, ainda. Tento desenvolver ferramentas que permitam evidenciar qual a função das dimensões do som na expressão da forma ou na sua percepção. Dito em duas palavras, é isso. Envolve uma grande parte da produção dos séculos XX-XXI, e XIX, e estou descendo até o período circunrevolucionário francês. Enfim, é um leque grande e estou tentando trazer evidências de como a sonoridade, o timbre, a orquestração, vai depender, tem um impacto sobre a expressão musical e sobre como isso é percebido.

     

    Tem o teu livro, Estética da Sonoridade, que traz essa pesquisa desenvolvida. [http://goo.gl/LGrd8Q]

     

    Tem tido um bom respaldo, muita gente leu e estou desenvolvendo várias ramificações desses projetos, com outras pessoas.

     

    Tenho feito esta pergunta pras pessoas e tem sido interessante coletar respostas diferentes. Ela esconde um paradoxo e a intenção é ver como o mundo da música eletroacústica é visto por músicos. Você acha que, em geral, no mundo, existe uma cultura eletroacústica?

     

    Uma cultura? O que você entende por cultura eletroacústica?

     

    Então, exatamente essa é a pergunta, no fundo! [risos]

     

    Bom, é uma comunidade, que compartilha estratégias, estética e, inclusive, ferramentas. Se isso cria uma cultura? Creio que sim, porque de fato é uma música que se diferencia da cultura eletrônica, por exemplo, da música de pista, que é outra cultura… enfim, tem sim. Ela é uma pequena comunidade.

     

    Na tua prática, como professor, como você vê o papel do incentivador? Isso faz parte do papel do professor? Como é que tem sido isso ao longo dos anos pra você?

     

    Dou aula, essencialmente, de história e estética — um pouco de técnica composicional, mas bem pouco — dos séculos XX e XXI. Nisso, acho que o meu papel é incentivar, primeiro, os alunos à audição, à escuta dessa música, que inclui também, obviamente, música eletroacústica e concreta — muitos chegam a mim sem sequer ter ouvido a Sagração da Primavera [Igor Stravinsky]. E incentivo uma escuta crítica. Estou tentando dar ferramentas, por mínimas que sejam, históricas e estéticas, para que eles se apropriem dessa música que muitos consideram como estranha a eles, pela qual não se interessam.

     

    No sentido dessa música que você faz, que muitos de nós fazemos, uma música, talvez, mais estranha, fora dos padrões de venda do mercado, como você vê a relação com o público? Como você vê um trabalho de incentivar o público a ouvir esse tipo de música, não só eletroacústica, a música feita hoje, desse tipo que nós fazemos, de uma forma bem ampla?

     

    Olha, temos tido alguns projetos aqui que tem funcionado bem. Tanto na academia, dentro da universidade, quanto fora, em espaços alternativos, onde costumam tocar rock e não sei quê, abre-se espaço também para esse tipo de interações. Óbvio que 80% do público é de convertidos, pessoas interessadas, curiosas ou já aculturadas. Vi processos de curiosos, que vem e acabam apreciando. Isto porque na verdade às vezes somos nós criadores que estamos pré-julgando mal o público. Pensamos que não são capazes de ouvir coisas diferentes… não é sempre verdade. Mesmo alguém totalmente despreparado, pode chegar em um concerto de música eletroacústica e viajar, como quiser, da forma que achar por bem. Temos organizado concertos de música experimental, onde mesclamos música eletroacústica e outras coisas, e o público é regular, aumenta e metade é gente despreparada, mas que aprecia. Porque a gente capricha na execução, na preparação. Fazemos o possível.

     

    Tem alguma coisa que você veja que faz falta, hoje, na música contemporânea brasileira, em geral?

     

    Programar esta música nas instituições estabelecidas… ainda que esteja melhor do que antes. Rádios. Além de São Paulo e Rio, não tem nenhuma rádio que toca isso. Mais espaço nas orquestras e formações institucionalizadas. Pedagogicamente, o ensino da música é obrigatório nas escolas, mas duvido que os professores estejam preparados para também abordar a música contemporânea. Por que que sempre gostei de música eletroacústica? Porque escutei desde criança, na minha casa. Então, é isso, não tem muito mistério.

     

    Muito obrigado, Didier! Foi um prazer ter você aqui, conosco.

     

    Obrigado a você!

     

     

    Mais, em:

    http://didierguigue.bandcamp.com

    http://www.facebook.com/DidierGuigueMusic

     

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