Amor e ódio em tempos de protestos

3 Posted by - 30/03/2015 - #3, ano 2, Lilian Nakao Nakahodo

  • Na última edição da Linda, a Julia Teles nos apresentou misturas musicais inusitadas e desconstruções subversivas de canções, num artigo sobre “versões deturpadas de músicas muito conhecidas”. O que me fez lembrar do “System of a Dilma”, mashup criado pelo Dj Faroff em 2011 e difundido via Youtube. Pra mim, é um dos vídeos mais divertidos nesse ramo:

    Eu sou fã de mashups – que também gosto de chamar de “mistureba” – e já me diverti bastante explorando essa ideia na concepção de uma trilha de espetáculo urbano de dança. Eis duas faixas, compostas em 2011, a partir de fragmentos instrumentais conhecidos, gravações de músicos de rua e outras coisas:

    Mas eu gosto mesmo é da subcategoria de versões musicais criadas a partir de discursos políticos, como o “System of a Dilma”. O primeiro deles que ouvi não é exatamente um remix, mas uma espécie de sonificação manual de um discurso do Collor, feita, (claro!,) pelo Hermeto Pascoal, faixa do álbum “Festa dos Deuses”, de 1992:

    Nem o discurso inaugural do presidente dos Estados Unidos escapou de ser “mashupado”, em tempo real:

    Aliás, tem até um canal do Youtube, o “Baracksdubs”, só com releases de mashups do Obama, que apresenta “hits” como este:

    Gosto dessas misturas porque geralmente resultam em algo divertido. E também porque, nesse processo de deturpar a exposição metódica e retórica do discurso, gera-se uma nova expressão não necessariamente política (embora, como em tudo, seja possível enxergar uma ideologia política nessa desconstrução): uma expressão que vai além da combinação de sons aleatórios (com imagens ou não). É a desorganização e reordenação do que já estava organizado, que coloca em foco uma necessidade de mudança latente. Uma transformação do que é familiar, realizada, literalmente, pelas próprias mãos. E aqui, lembrando Marshall McLuhan, o meio é a própria mensagem de transcendência.

    “Copiar”, “combinar”, “transformar” são procedimentos comuns por trás de grandes invenções e processos criativos na humanidade. É com essa premissa que o cineasta Kirby Ferguson sustenta a ideia que tudo é um remix, apresentada em uma série independente de quatro episódios. Usando exemplos de músicas famosas a grandes invenções, Kirby demonstra que as leis sobre patentes e copyright vão contra a noção de construção criativa sobre o trabalho de outros. Everything is a remix é um documentário que vale muito a pena assistir. Porque não apenas questiona a validade e os benefícios de tais leis americanas (e de mundo afora), como aprofunda, com exemplos que vão te deixar surpreso, a discussão sobre propriedade intelectual.

    * * *

    Acompanhei um pouco pela televisão os protestos do dia 15 e só. Duas amigas, em momentos diferentes, me relataram a experiência de estar lá, no Centro Cívico da cidade, epicentro das manifestações oficiais. Uma, empresária, falou da necessidade que sentiu de “fazer parte desse momento histórico”, da catarse coletiva, da sensação de estar num programa de família, desses que se coloca fitinhas no cabelo da filha. A outra, bailarina, disse que estranhou ver tanta gente na rua e nenhuma conhecida (porque Curitiba é pequena; sempre se encontra alguém pra fingir que não viu). “- Cade meus amigos pobres!?” ela se perguntou, fazendo graça.

    Se sonificássemos a diversidade de demandas nesses protestos, teríamos um massudo e sonoro mashup. Os fragmentos de ideologias que estavam lá, justapostos, não eram nada originais; são cópias do que já vimos em outros contextos e canções, com outras vestes e estilos. O que não tira, de jeito algum, o peso criativo do evento, do meu ponto de vista. Pelo contrário: gosto de pensar que a partir da combinação e transformação dessas vozes plurais e disconexas, cheias, sim, de amor e ódio, poderá nascer algo expressivo. Uma das diversas facetas do ódio, como disse o Tiago de Mello num texto anterior sobre black metal, se confunde com a vontade de mudança. E o amor, inflama e exige. Tomara que essa fusão nos una, principalmente em tempos difíceis como estes.

    Lilian N. Nakahodo

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