A Seqüência de Schikzel

5 Posted by - 30/03/2015 - #3, ano 2, francisco de oliveira, max packer

  • Depois de atravessar galáxias, de cobrir a distância de anos e anos-luz por esse universo afora (para que você, leitor, tenha idéia de quão longe estamos falando, saiba que estamos medindo isso aqui em anos do planeta Zigzoid, os quais duram cerca de 47 anos terrestres), o ainda jovem (graças à relatividade!) Etevaldo chega ao planeta Terra. Bem na hora de uma partida de poker!

    Sem ser notado pelos terráqueos (graças ao fato de que terráqueos não notam ETs), Etevaldo lança-se à árdua tarefa de compreender o jogo. As pilhas de fichas transferindo-se de um lado a outro, a relação entre os padrões de cartas à mesa e os padrões de comemorações e, sobretudo, os blefes são custosos de entender para nosso herói intergaláctico… Mas uma coisa ele nota de imediato e, com entusiasmo (sim, ele conhece o entusiasmo e, de fato, se há alguém entusiasmado por aí, é o pessoal de Zigzoid!), comunica aos seus:

    – Eles usam a seqüência de Schikzel!!!

    “Seqüência de Schikzel!?”, deve estar se perguntando o Sr. Leitor. Pois saiba o Sr. – e proteja-se assim da ignorância! – que isso que nós terráqueos chamamos de “ordem natural” (1 (ou Ás), 2, 3, 4, 5 etc.) é uma seqüência relativamente complexa para a matemática de Zigzoid, talvez equivalente em complexidade, para eles, ao que é para nós a ordem dos números primos. Inversamente, a seqüência-base da matemática zigzoidiana, o que eles chamariam de “ordem natural” (se eles tivessem a noção de natural, ou se eles ignorassem que há matemáticas e matemáticas por esse universo afora), não é apenas complexa demais para nossa matemática, mas não pode sequer ser descrita por nosso sistema numérico – se pudesse, diríamos ao leitor como ela é.

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    Conta o antropólogo Ian Packer que, certa noite, em temporada junto aos índios Matis, habitantes do vale do Javari, sudoeste amazônico, os homens da aldeia reuniram-se na antiga maloca para contar suas histórias. A certa altura, pediram-lhe:

    – Branco!, conta um mito do seu povo.

    Desconcertado com o pedido – como um cara-pálida haveria de ficar –, Ian lembrou-se, ainda assim, de uma história que sua avó lhe contava na infância (a “história do cheiro bom”!) e decidiu contá-la também:

    – Era uma vez, num lugar não muito longe daqui, havia um reinado que estava em decadência, o rei já estava velho e a rainha também, e as pessoas não tinham com o que trabalhar nem o que comer… Era uma tristeza… sobretudo pelas crianças que não tinham força para brincar, e andavam desanimadas… Daí que certo dia, numa praça em que batia um sol lindo!, as crianças ali reunidas começaram a sentir um cheiro… um cheiro delicioso de comida na panela… era tão, mas tão fascinante aquele cheiro de comida que as crianças, lideradas pelo menino mais esperto, decidiram seguir aquele cheiro que transbordava a vila e encorajava-os em direção à floresta…

    Conforme a narração se desenrolava, os índios interrompiam para discuti-la em sua própria língua. Em meio às indagações e curiosidades dirigidas a ele, Ian notou que os índios não se interessavam tanto pelos fatos de que, para alcançar aquele perfume, as crianças tiveram que atravessar montanhas íngremes e rios gelados, ou ainda, de que a pouca comida do fogãozinho da casinha dos velhinhos de onde vinha aquele cheiro maravilhoso precisaria da ajuda de passarinhos mágicos para se transformar num banquete! Para a surpresa de nosso herói trans-amazônico, o que eles antes precisavam saber, a fim de entender a história, era se “aquela panela em cima da mesa era de barro ou de pedra!?”; ou se “o velhinho e a velhinha eram casados ou irmãos?”; ou ainda: “quais são exatamente esses passarinhos encantados!? Araras ou Inhambus?”

    O pequeno Ian, há pouco fantasiado de Batman nos jardins de vovô Hugo, não soube responder. Aparentemente, os elementos em cujas relações se concentravam o sentido da história para seus amigos Matis eram detalhes irrelevantes para os netos de Dona Yayá – ou, ao menos, ela nunca precisou mencionar se a árvore em que não sei quem subia dava frutas ou flores para que a primaiada se entusiasmasse (sim senhor, Sr. Leitor!, também os cara-pálidas conhecem o entusiasmo!).
    Enfim, talvez não precisemos, pois, procurar em outras galáxias para encontrar perplexidades análogas à experimentada por nosso cavaleiro sideral diante de uma partida de poker.

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    *     *

    A chegada de nosso Etevaldo ao planeta Terra serve bem – e há de servir – de prova de que há lugares em que a matemática zigzoidiana pode chegar que nossa matemática não alcança. Curiosamente (pela dimensão de seus feitos!), a recíproca é verdadeira. O Sr. Leitor não deixará de notar, por exemplo, quão pitoresco é o fato de que nossos amigos do lado de lá simplesmente não sabem que a soma dos quadrados dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa. Pois saiba também, Sr. Leitor – e o senhor há, por nós e por eles, de comover-se –, que o povo de Zigzoid jamais ouviu qualquer coisa que sequer parecesse com isto:

    Neste exato momento, Etevaldo aproxima-se das fronteiras da Via Láctea e, embora esteja já muito distante de nós, seu caminho para casa é longo. Longe também ele está de processar a bomba de significação que recebeu com Mozart, mas, na silenciosa companhia dos sistemas interestelares por que ele passa e de um ou outro cometa que brevemente se emparelha à sua nave, nosso herói da imanência vai fundo em suas meditações sobre as tríades, sobre nossos sistemas de afinação, sobre a própria possibilidade de… música.

    Sim senhor, Sr. Leitor: há tanta coisa que tomamos por dado (we take too much for granted!), que deixamos, por vezes, de assumir o tesouro cosmológico que é algo como… música! – e, sobretudo, Sr. Leitor, deixamos de reconhecer, tal como reconheceram Srs. Mozart e Etevaldo, o quão longe nós chegamos com isso!

    Angeli: Aula de Astronomia (c. 1757)

    Angeli: Aula de Astronomia (c. 1757)

    Há aqui uma pergunta que a passagem dos nossos visitantes de outros mundos deixa ainda sem resposta e que, talvez, caiba – e há de caber – a nós próprios, desta curiosa tribo do ocidente terráqueo, responder: será possível um outro, um verdadeiramente outro tonalismo?; ou as tentativas de emancipação daquele que construímos estarão eternamente fadadas ao saguão das negações, paródias, corruptelas e primitivismos?

    Francisco de Oliveira e Max Packer

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    1 Comment

  • tania tatiane barbosa soares 09/04/2015 - 10:03 Reply

    Acho que já ouvi essa historia antes , posso até ouvir sua voz !

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