Música para os olhos (Inundação visual-sonora).

2 Posted by - 23/02/2015 - #2, ano 2, bruno fabbrini

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    tsunehisa kimura: inspiração caótica e copy and paste

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    Motivado por uma discussão na escolha da capa do novo 7’ do Baoba, resolvi falar sobre ela, a materialização de um trabalho, apresentado por um pedaço de papel cartolina, a capa de um disco.

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    Muitos colegas mencionaram o termo experimental e trouxeram essa discussão à primeira edição da linda em 2015. Com diversos desdobramentos e definições o tema ganhou vida, veio à luz, aclarou-se – ou ficou ainda mais turvo – e, seguindo nesse embalo, quando se trata das capas de disco, haverá um padrão para definir as experimentações ou o próprio formato é um experimento em si mesmo? Diferente da música e suas definições mais enraizadas (estruturação de ritmo, harmonia e melodia; edição, manipulação e organização de matéria sonora), às capas não têm, nem nunca tiveram, nenhum manual de normatização em relação à suas regras estéticas e ao seu conteúdo e, ao longo de décadas, lograram glórias, lágrimas, polêmicas, reconhecimento, vetos e proibições (por nudez, violência, etc), tornando-se porta-vozes de diversos movimentos musicais, políticos e comportamentais, retratando ao seu próprio modo a passagem do tempo. Como exemplos podemos pensar em Tom Zé e seu célebre Todos os Olhos, os Beatles, sua banda imaginária e a colagem mais famosa da história, a consagrada série de capas da Blue Note partindo de fotos angulares, escuras e esfumaçadas, com ares noir e uma tipografia bem destacada, criando e retratando sua estética jazzy, ou ainda na associação entre Velvet Underground e Warhol, com a música e a Pop Art sintetizadas na figura de uma banana. Mais para frente se destacariam ainda as fotos sujas e desbotadas que se tornaram porta-vozes da cultura DIY/punk, espalhando-se em álbuns, botons e camisetas e toda uma variedade de experimentos que formariam o imaginário visual-musical a partir da segunda metade do séc XX. Quantas vezes, antes mesmo da audição,  o contato e as consequentes impressões causadas por  uma capa foram (e continuam sendo) decisivos para transformar o estímulo visual em estímulo sonoro: Veja, ouça! Quem nunca ficou com vontade de comprar – e comprou- um disco pela capa que atire a primeira pedra. Mas, afinal, qual a origem das capas de disco?

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    Os discos, como forma de coletâneas sonoras, começaram a ser comercializados em 1930, nos Estados Unidos, e eram acomodados em frágeis envelopes de papéis no interior de um álbum que acomodava até 4 discos. Vendidos em livrarias comuns e expostos lateralmente em uma estante dedicada a música (tal qual hoje vemos, usando uma analogia contemporânea, nas mega stores), não havia nenhum destaque especial às capas enquanto elemento importante de apelo visual; eram diferenciadas  apenas por algumas tonalidades de cor. Porém, com o intuito de aumentar suas vendas, seduzindo os olhos dos compradores, o jovem designer Alex Steinweiss foi  o nome que mudou para sempre a história das capas dos discos. Contratado pela Columbia Records no início dos anos 40, como diretor de arte, ele concebeu sua primeira capa em ‘Smash Songs Hits by Rodgers and Hart’. Pouco depois, a gravadora relançou a Nona Sinfonia de Beethoven com uma nova capa e viu suas vendas crescerem mais de 800% em relação a edição anterior. Pronto: surgia, a partir daí, uma nova arte.

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    ‘Na minha abordagem sobre o design das capas de disco, eu tento evitar qualquer interpretação direta de valores musicais, uma vez que, acredito eu, nenhum artista tem o direito de interpretar uma forma de arte nos termos de uma outra, e de forçar sua interpretação pessoal sobre um público inocente. Ao invés disso, eu tento, por meio de cores, formas, texturas, e do desenho das letras, projetar o clima da música; ou, talvez, pela simbolização, projetar uma impressão sobre a vida ou o perfil do compositor’ (Alex Steinweiss: Creator of the modern album cover).

    capas blue note

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    Outras séries de capas de álbum viriam a se tornar poderosas marcas na música. A associação entre o fotógrafo Francis Wolff e o diretor de arte Reid Miles resultou em uma das mais frutíferas parcerias na degustação visual-musical: as capas da Blue Note. Foram mais de 500 capas ao longo de quinze anos, muitas delas tornando-se referências onipresentes no jazz e futuramente homenageadas, imitadas e até parodiadas. No Brasil as capas da gravadora Elenco, de autoria do designer César Villela, iriam levar a Bossa Nova a sua própria estética visual, com todas as capas finalizadas na técnica de alto contraste, muitas delas com quatro bolinhas vermelhas, que segundo o próprio Villela, faziam menção a cabala judaica, a um número que se refere a harmonia. “Certa vez vi uma exposição com diferentes experimentações na revelação e gostei de uma, que estava em alto-contraste. Perguntei pro Chico se ele conseguia fazer aquilo e ele me disse que sim. A primeira capa com essa ideia foi a do disco “O Amor, o Sorriso e a Flor”, do João Gilberto, com efeito solarizado. Resolvi experimentar e todo mundo topou, ninguém falou nada. Aí, quando o Aloysio me chamou pra fazer as capas da Elenco eu disse, “vamos fazer tudo em alto contraste!”

    capas da elenco

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    Com o tempo, essas e outras diversas direções estéticas foram se consolidando entre tipografias bem trabalhadas, colagens,  referências diretas ou menções a obras de arte, experimentalismos fotográficos e ‘fotos toscas’, de forma que algumas associações mais imediatas podem ser feitas em relação um gênero/estética musical e seu cartão de visita. Em um ótimo artigo escrito para a revista Piaui, o professor Lorenzo Mammi faz uma incursão pelo mundo do disco de vinil, analisando não só as capas, mas todo o significado e as revoluções trazidas por essa forma de mídia para a nossa cultura auditiva-musical. Diz ele: Na geografia de uma casa, na construção da personalidade, livros e discos foram, por gerações, objetos gêmeos. Para muitos de minha idade, casar significou juntar livros e discos, separar-se significou dividi-los: “Levou um bom disco de Noel”; “Devolva o Neruda que você me tomou, e nunca leu” – é o que nossos discos dizem. Entrando na casa de alguém, busco instintivamente as lombadas dos livros e as capas dos discos para saber se terei assunto, se poderemos ser amigos. As capas em particular, com seu formato quadrado de 30 por 30 centímetros, foram um campo especialmente favorável a uma diagramação criativa. O disco já não era mais um som: era um mundo para o qual concorriam diferentes linguagens, um sistema de códigos, um modelo de vida. Clique aqui para ter acesso ao texto.

    invenção, reinvenção, transgressão(?), paródia…

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    Se você pesquisar capas de disco, oportunidades para encontrar boas imagens (e histórias) não faltam. Intermináveis listas classificadas por gênero, importância histórica, critérios subjetivos de “melhores e piores”… o universo é infinito. Talvez seja por essa multiplicidade de influências e desejos  que se  torne tão difícil para uma banda escolher a capa de um trabalho. É ela, em primeira instância, que media e sintetiza uma labuta de inúmeras horas entre composição, ensaios, arranjos, gravações e desejos/expectativas, além de toda uma relação afetiva/emocional entre os artistas e seu trabalho na hora do lançamento.

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    DIY

    tom zé vencendo a censura

    …e hendrix barrado por ela

    * pro smile, sempre junto nos sons e ruídos.

    Bruno Fabbrini

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