música experimental é um discurso sem bateria?

7 Posted by - 23/02/2015 - #2, ano 2, tiago de mello

  • PS: O meu último texto ficou, sim, pela metade! Como disse, ali estavam pensamentos preliminares meus acerca do novo álbum do Racionais. Uma análise estendida aos timbres, espacialização e mixagem pretendo publicar quando da linda-iv, nossa compilação quadrimensal! {:

     

    Hoje gostaria de falar sobre tocar teclado. O primeiro instrumento musical que ganhei na vida foi um teclado. Um CASIO SA-5, comprado no Mappin. Era um teclado infantil, claro, mas polifônico de 2 vozes, com três bancos de acompanhamentos (cujo andamento poderia ser variável) e seis bancos de timbres, que, por sua vez, podiam ter até 4 variações paramétricas. Era um instrumento completo!

    A caixa do meu Casio SA-5. Acho que a caixa representa melhor o seu espírito que o teclado em si.

    A caixa do meu Casio SA-5. Acho que a caixa representa melhor o seu espírito que o teclado em si.

    Meu desenvolvimento como tecladista nunca aconteceu. Acabei ganhando um violão quase uma década depois e foi o que fui estudar. Mas se instrumentista eu não me tornei com aquele CASIO, talvez para minha carreira de compositor aquele tenha sido um estágio fundamental! Lembro que gostava de ouvir as mudanças que o botão EDIT (um alterador de parâmetros do sintetizador interno nada explícito quanto ao seu funcionamento) fazia ao som. Gostava também de aumentar ou diminuir aos extremos o andamento dos acompanhamentos. E lembro também do que não gostava: de ouvir as músicas DEMO que vinham junto, e que, uma vez postas à execução, inviabilizavam qualquer manipulação de parâmetro, ou mesmo a possibilidade de se tocar junto: a música DEMO inviabilizava o teclado!

    Há uns anos, fiz um duo com o Lucas Rodrigues Ferreira, para fazer cover, à nossa maneira, de canções. Dentre o set instrumental que usávamos estavam nossos dois Casio SA-5 (o Lucas, por acaso, também ganhara um!). E esta foi a nossa apresentação:

    Esse texto, aliás, é uma não-resposta ao texto do Lucas: Música é um discurso e uma bateria?

    ***

    Esse ano, comprei um teclado. Foi o primeiro instrumento musical que comprei com meu próprio dinheiro e me dei. Poderia encarar, assim, como um recomeço do meu ciclo tecladístico? Comprei um Nord Lead 4.

    Minha primeira ideia era comprar apenas o rack: um sintetizador sem teclado, com entrada midi através da qual eu poderia controlar “as notas” pelo computador, em ambiente MAX/MSP, por exemplo. Esse procedimento foi usado na criação do meu caderno lagom (gravado no meu CD solo, o cadernos, tdm, disponível aqui: https://nmelindo.bandcamp.com/album/cadernos). Das faixas que fiz, no Estúdio de Música Eletroacústica de Stockholm (o EMS, do qual já falei na linda também), a que se destacou pelo uso deste processo foi a não-homenagem ao Cage: imaginary landscapes.

    Explico: gerava “as notas” por MAX/MSP em um algoritmo que controlava a intensidade das notas, quais as notas, e a duração das notas, e enviava ao teclado. No teclado, eu “tocava” os botões de controle paramétrico. Ou seja: ao invés de tocar “as notas”, eu tocava os “parâmetros” de síntese. A improvisação de cada tocada era gravada e depois montada em Protools. Mas como o rack + o teclado de 4 oitavas custava apenas 100 euros a mais, comprei a coisa toda! E agora eu tenho um teclado (mais do que um sintetizador). Isso acaba gerando dois fatos interessantes:

    – A minha expectativa quanto às utilidades possíveis do teclado em si, que possam agregar novas possibilidades ao procedimento acima explicado;

    – A expectativa das pessoas que eu use um teclado como um teclado.

    ***

    Esses dias, um curador de uma importante instituição cultural me ligou, perguntando se eu não gostaria de propor um concerto. Haveria um festival de música eletrônica, e o NME havia sido ventilado como possível apresentação. Eu falei que seria um prazer, e que pensava já ter o projeto na medida: um projeto com curadoria do Lucas, em que empossaríamos nossos velhos instrumentos (ou recém-adquiridos, no meu caso), para, através da experiência eletroacústica/improvisativa/contemporânea, repensar o fazer musical de uma banda (banda essa, aliás, que já foi tema de um texto do Sérgio Abdalla aqui na linda: Sobre a banda).

    Bem, houve um desentendimento: o curador me explicou que eles estavam atrás de uma apresentação de música meramente eletrônica, sem a utilização de instrumentos. Ao menos, sem a utilização dos instrumentos tradicionais.

    Decidimos manter nosso projeto, tentando mostrar ao curador, à instituição, ao público, que instrumentos não se valem dos músicos: os músicos se valem dos instrumentos, que são, afinal, instrumentos. Fiquei pensando na expectativa que devem ter ao me verem com um case de teclado por aí…

    E antes que se pense haver culpa alguma nessa história toda: não há! Expectativas são sentimentos naturais (instintivos?) nossos, e embora questionamentos sejam necessários (e eis aqui esse texto), também não posso esperar que esperem de mim algo que não sejam as tais “notas”.

    Gostaria de terminar esse texto com alguns excertos do que tenho feito com meu Nord Lead 4. Espero que gostem ;}

     

    Tiago de Mello

     

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