Canção, estrelas mortas e inventividade: em conversa com Julia Teles

4 Posted by - 23/02/2015 - #2, ano 2, alessa

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    Na edição passada, Julia Teles lançou a seguinte pergunta aos ventos: “E a canção experimental, o que é?”. A canção é um assunto que me acompanha há muito tempo. Minha formação base foi em canto popular e por mais que eu tenha estudado outros campos musicais depois, acredito que para tudo que olho, vejo com o filtro da voz. Criei consequentemente um olhar cancioneiro.

    Nas indagações da Julia sobre a busca de uma possível definição da canção experimental estão três perguntas sob as quais eu gostaria de me debruçar:

    1. Quando uma música deixa de ser canção?

    2. O que exatamente é imprescindível a ela? Voz, texto?

    3. Em que nível ela pode ser transformada?

    Antes que eu enfrente essa pedrada, admito que este texto não dá totalidade ao assunto. A canção tem em sua gênese um caráter multidisciplinar, é música multimídia. Portanto, suas ferramentas de análise devem ser múltiplas.

    Para começar tentarei definir (o que já é problemático) o que é canção. Para mim, ela é constituida dos seguintes elementos: canto (melodia), contexto musical (harmonia, arranjo), texto (letra e tudo que tenha caráter semântico) e performance (de palco, do disco, difusão).

    Recorro à premissa de Maiakóvski para pensar no que é experimental e a frase “sem forma revolucionária não há arte revolucionária” sempre me vem a cabeça. Portanto, para algo ser novo neste modelo que proponho, há de contemplar estes quatro elementos descritos acima. Para testar, vamos pensar em dois movimentos cancionistas já contemplados com o “selo revolucionário” pela crítica especializada: a Bossa Nova e o Tropicalismo.

    Na Bossa Nova, o canto radicalizou-se do vozeirão de Caruso à voz mínima de João Gilberto, o contexto musical também foi contemplado incorporando as dissonâncias numa mistura choro e jazz não apenas nos acordes, mas também na melodia da voz. As letras também se modificaram e passou-se a cantar o otimismo, mesmo que disfarçado em “promessa de felicidade” como teoriza Lorenzo Mammi. Enquanto a performance tornou-se intelectualizada, “esfriou-se” o samba para que a mente entrasse na jogada, como Walter Garcia diria.

    No Tropicalismo, filho rebelde da bossa nova, o canto faz as pazes com o grito, os arranjos incorporam elementos experimentais, não somente guitarras elétricas, mas happenings em um grande alô Rogério Duprat! O texto carnavaliza-se consagrando a ironia e o deboche, enquanto a performance se escandaliza.

    É claro que não dá para dar conta dos dois movimentos em simples linhas, mas vale ressaltar que ambos pautaram o que estava por vir ao mesmo tempo em que nos fizeram repensar o passado. Importante é lembrar que nestes dois momentos, o contexto midiático foi atuante na construção da identidade destes, a bossa nova e sua relação com o rádio, mas principalmente a tropicália e seu affair com a recém chegada televisão.

    Porém, cabe aqui ressaltar que revolucionário e experimental são parecidos, mas não necessariamente sinônimos. Acredito que revolucionário seja uma forma de ruptura para o estabelecimento de outro padrão. Enquanto o experimental nega em sua própria gestação este padrão.

    Acredito que possa haver um DNA da canção até em coisas não cancioneiras se formos pensar pela ótica do trovadorismo. Vejo a canção experimental um pouco por ai, um novo repensar do trovadorismo, do contar histórias.

    Quando John Lennon e Yoko Ono resolveram ficar na cama em apoio a paz mundial, vejo neste ato uma canção experimental, mesmo que sem música. “Give Peace a Chance”, canção resultante disso, é careta e não tem o efeito questionador da performance na cama. Não me surpreende que Lennon, depois de ter “zerado o video game” da canção pop tenha abandonado os Beatles por Yoko Ono, que o ensinou a fazer canção de uma outra maneira.

    Outro exemplo, ainda no main stream é Björk, especificamente o aplicativo do Biophillia no qual o ouvinte reconstrói a canção à maneira que desejar. Vejo no aplicativo um possível modelo de canção-experimental.

    Tanto na performance canção-cama de Lennon & Ono quanto no aplicativo de Björk o efêmero e o risco se mostram presente. É aquela performance, é aquela vez que “joguei” o aplicativo, acabou. Tenta-se outra coisa.

    Portanto, talvez pensar em um gênero canção experimental seja meio olhar para as estrelas e ver que elas já estão todas mortas. Talvez o DNA do experimental seja a própria morte. O que mantém a canção experimental viva é algo além música e que consegue conectar canções completamente diferente entre si em estilos, a inventividade.

    Aqui vão outros exemplos do que considero canção experimental:

    John Oswald – Dab

    Max Matthews – Bicycle built for two

    PARA MAIS INFORMAÇÕES:

    CAMPOS, Augusto de. 1974. Balanço da bossa e outras bossas. São Paulo: Perspectiva.

    FAVARETTO, Celso.1976. Tropicália , alegoria, alegria. 4 ed. São Paulo: Ateliê Editorial.

    GARCIA, Walter. 1999. Bim Bom: A Contradição sem conflitos de João Gilberto. São Paulo: Paz e Terra.

    MAMMÌ, Lorenzo. 1992. João Gilberto e o projeto utópico da bossa nova. Novos estudos Cebrap, no 34. São Paulo, novembro. p. 63.

     

    Alessa

     

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