Audiogenia (como ‘fotogênico’)

3 Posted by - 23/02/2015 - #2, ano 2, lucas rodrigues ferreira

  • Eu gosto de coisas que aconteceram em música em Nova York no começo dos anos 80 – nessas coisas pouca gente ia, imagino. Tento não romantizar. Eu li o livro do David Byrne, e li várias entrevistas. Fala-se em construção de técnicas pessoais, fala-se em ignorar o passado em virtude da criação de experiências não “Novas”, mas outra coisa como se fosse nova, sem a pretensão que o “Novo” confere.

    Um outro texto com alguém falando que fazia algo que sabia que alguém em outro lugar já fazia, mas não sabia quem-como-onde, mas imaginava que era algo que provavelmente era feito por alguém em algum lugar porque ué, né. Então em algum ponto eu comecei a escolher o que gostar. Parece óbvio agora, escrevendo. Mas eu quero dizer que eu escolho mesmo antes de saber que existe, e se depois eu descubro ou não é irrelevante – música não tem nada a ver com Música, no fim, e circularmente eles estavam certos.

    Eu tenho um computador, eu tenho uma guitarra, eu tenho meias, eu tenho garganta, eu tenho um saquinho de gergelim que eu tirei da cozinha e coloquei na minha mesa porque achei que ia ser um bom chocalho, e não é um bom chocalho, não pra microfones pelo menos. Não é audiogênico.

    Espera-se que uma câmera tenha fotogenia? Que seja a portadora de um grau de fotogenia. Que seja a facilitadora ou a limitadora da fotogenia das imagens que capta. Assim como microfones servem pra isso ou pra aquilo – o chocalho precisa de um microfone muito mais sensível, um microfone acolhedor; uma guitarra alta precisa de um microfone bruto (uma guitarra alta precisa de um microfone bruto assim como o sol deve precisar de uma câmera bruta).

    Outro alguém mais novo americano, falando que fazia tudo de verdade no estúdio. St. Vincent, acho. Todas as partes são tocadas de cabo a rabo, e ela tinha orgulho disso, ou então parecia achar que isso era uma questão de honestidade. Enfim.

    Glenn Gould distinguia entre realismo e realidade. Realism and Actuality. Isso se dava no contexto das suas peças para rádio (The Solitude Trilogy), nas quais o corte e a colagem eram ferramentas um tanto imperativas, manipulando vozes gravadas a dizerem o que o autor queria, através da edição. YouTube Poop. Isso se dava também nas suas gravações de Bach: gravando o mesmo trecho com diferentes intencionalidades musicais, gravando voz por voz de contrapontos densos, em busca de maior clareza.

    Eu digo isso porque estou gravando algumas canções, e apesar de querer muito conseguir replicar o processo da St. Vincent, tem sido muito difícil manter na cabeça todas as alterações que se acumulam em um pedaço de música, mas mais do que isso, talvez todas as músicas sejam colagens, sobreposições, e manipulações de significados: tudo seja YouTube Poop.

    E acaba que eu tenho acordes, eu tenho timbres que eu sei que eu quero ali, eu tenho uma letra, uma melodia, uns acordes, um monte de pedaços, um monte de papel rasgado, aquelas bolinhas e quadradinhos que as pessoas faziam em bloquinhos quando se usava telefones com fio e você tinha que ficar parado esperando alguma coisa, eu tenho um monte disso. E não se ouve música na cabeça (mas ainda se ouve no telefone), a cabeça não funciona em tempo linear sem muita concentração (frases curtas muita pontuação).

    Então acaba que mesmo nas canções, da estrutura pré-definida, dos acordes, das coisas certas das fórmulas certas, o trabalho manual é o mesmo de mover pedacinhos e colar pedacinhos, mas com alguém cantando. O mesmo da “música eletroacústica de concerto que descende da tradição musical europeia”, é o que eu quero dizer. E eu não tenho fôlego e eu não tenho voz então eu pago por isso movendo muitos muitos pedacinhos. E distinguir realidade (é só não mexer em nada? mas o microfone mente e tudo soa tão mais fraco!) de realismo (criar paisagem, fazer falar, trazer à tona, dar luz, sombrear, simular, diluir, afluir, criar uma realidade controlada, dobrar guitarras porque fica lindo e é o que eu queria que existisse) é difícil. Sem autotune, por honestidade.

    lucas

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