A Tragédia do Banhista

5 Posted by - 23/02/2015 - #2, ano 2, francisco de oliveira, max packer

  • Imagine o leitor que o homem médio tivesse 28, 29 metros de altura… Ou, inversamente, que o homem médio tivesse algo entre 6 e 7 centímetros de altura e uma onda qualquer no mar de Ubatuba fosse uma monstruosidade para nós. Ou, ainda: que o homem médio tivesse a altura que tem, mas que as faixas de areia de nosso litoral se estendessem por não muito mais do que um palmo entre mata (ou falésia) e mar, permitindo apenas à Sra. Abelha ou à Da. Joaninha bicar uma caipirinha enquanto o maridão vai fazer um cooper.

    Para além do frescor da brisa, da exuberância das paisagens e das promessas de amor nesta ou naquela curvinha, há um fator, talvez o mais primário de todos, que permite à praia assumir o significado que ela tem para nós: o fato (vejam bem: é um milagre!) de estarmos em perfeita proporção para desfrutá-la.

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    Farta das plenas e equilibradas harmonias da arte renascentista – observa o Sr. Heinrich Wölfflin –, a arte barroca volta-se para as proporções dissonantes, por assim dizer. Note-se, ainda assim, que, seja em função de retratar dramaticamente seus motivos (1), seja em função de renunciar à exatidão das proporções orgânicas (‘o que é’) em prol de proporções técnicas (‘o que cria a impressão de ser’) (2), a proporção, para o artista barroco, não é acessória, não é ornamental, não é uma questão de gosto, nem mero meio de diferenciar-se dos mestres antigos. Tal como para um Da Vinci, a proporção em Caravaggio, Bernini ou Rembrandt segue sendo significativa. De fato, ela torna-se o centro da questão composicional: para o artista barroco, a graça se dá justamente quando a proporção entre as partes não pode mais ser dada como certa, quando a proporção não está mais garantida pela exatidão geométrica.

    Ao espectador, por sua vez, propõe-se aqui um desafio: não se trata de fruir passivamente as proporcionalidades do quadro, de refugiar-se no sentimento de plenitude, mas de inteligi-las, para, através delas, aprofundar-se sensivelmente sobre o drama representado.

    Caravaggio: O Sacrifício de Isaac (1603)

    Caravaggio: O Sacrifício de Isaac (1603)

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    Talvez não seja, afinal, um milagre a priori o de estarmos em proporção para desfrutarmos da praia; fôssemos nós gigantes ou anões, ela assumiria para nós outros significados. (A praia é essencialmente barroca, de todo modo!, e, ainda que nos permita habitá-la, das nuvens e morros, dos cocos e tocas de siri àquela outra praia, do outro lado da baía, ela prolifera proporções significativamente discrepantes). Assim sendo, talvez o desfrute da praia seja, insconscientemente, um desfrute de suas proporções. Decorre daí que curtir a praia não é algo tão simples assim. Exige-se, na verdade, um tipo muito especial de introspecção, ligado ao reconhecimento das formas. Eis então o desafio do banhista: como experienciar a praia? Como viver a discrepância de suas proporções? Há de haver algo mais entre uma onda e o Sr. Abelhudo do que a iminência de um não-afogamento!

    O problema é particularmente difícil de se resolver – e possivelmente o leitor já tenha experimentado tal dificuldade –: o drama proposto pela relação entre vento, siri, costão e conchinha, este drama sim é desproporcional com relação a nós; de tal maneira desproporcional, de tal maneira dilatado, de fato, que embora tenhamos vaga noção de sua força e de sua multiplicidade de direções, somos incapazes de abarcá-lo, deixando-nos entre o vislumbre de tal drama e o vislumbre de uma descomunal serenidade – a qual nem o mais radical dos renascentistas teria podido produzir. Resta-nos, assim, o dilema prático entre assumir a perplexidade do olhar, ou refugiarmo-nos no apaziguamento da sombrinha – convenhamos, também a débil paz do banhista é inédita na história da representação.

    Qual o preço que se paga por esse apaziguamento?, por uma deliberada abdicação do senso de forma? Diante da impossibilidade de experienciar a praia e diante da impossibilidade de neutralizar mentalmente suas proporções, sua descaracterização torna-se física: precisamos invadi-la com aparatos cujas proporções nós aguentemos. Escondemos, assim, os morros com prédios, as ondas com bóias macarrão, as tocas de siri com cadeiras dobráveis e a perplexidade com fotos, frisbees e frescobóis.

    E qual preço paga o compositor que abdica do senso de forma?, da dimensão significativa da proporção? Atrás de quê ele esconde sua música?

    Francisco de Oliveira e Max Packer

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