4 Cenas sobre a Surdez

2 Posted by - 23/02/2015 - #2, ano 2, Lilian Nakao Nakahodo

  • Cena 1 – Ensaio sobre a surdez

    Hora do rush. Como sempre acontecia naquele trajeto, naquela hora, os carros andavam vagarosos, como uma manada resignada em fila indiana. Motores em baixa rotação roncavam por todos os lados. Uma sirene com efeito doppler, em alguma via rápida transversal. Algum carro, com adesivo infame colado na traseira, deixava claro para todos, o gosto musical turbinado do seu dono. Num movimento rápido, o que estava entrando nos ouvidos do homem, sem que ele se desse conta, desapareceu atrás das janelas do veículo. Estou surdo, estou surdo, repetia para si mesmo com uma certa calma, talvez pela sensação de serenidade que esse silencio súbito provocava, em contraste com o mar de barulhos envolventes que estava ali até então.
    Diferente da cena inicial de cegueira do clássico de Saramago, o cara que fica surdo não se desespera. Embora a sensação fosse desconfortável, ainda assim era familiar aquele zumbido no ouvido. O primeiro homem surdo sente, então, seu mundo encolher. Primeiro, perde a noção das distâncias. O espaço passa a ser só um conjunto de imagens e sensações corporais. Aos poucos, ele vai esquecendo que as coisas têm nomes, e as metáforas que conhecia desde criança começam a perder o sentido. O tempo deixa de passar.
    Cena 2 – Surdez e a experiência sonora

    Após um jantar de família, do nada, o moço namorado começa a rir sozinho. – O que foi? pergunta a moça, namorada. – Seu pai acabou de soltar um pum! – Mas não senti nenhum cheiro, como você sabe!? – Eu ouvi! E cai a ficha pra moça, de que o mundo é todo sonoro, e que todo corpo produz e emite som. E que esse tal de som não é apenas vibração; ele tem gênero, cor, intensidades, e nomes diferentes.
    Essa foi a experiência libertadora da Sueli Ramalho, surda de nascença de uma família de várias gerações de surdos. Poliglota, que descobriu cedo o raro talento para a fala. Foi assistindo uma das várias entrevista concedidas por ela que me interessei por esse mundo desprovido de som, da maneira como nós o vivenciamos. Ausência que não é silêncio, veja bem. A noção de silêncio, complexa, depende da coexistência com sons. E para quem já ouviu, a experiência do silencio total é uma fantasia poética. Como correu a história de John Cage, que na expectativa de “escutar silêncio”, visitou a câmara anecóica da Harvard e no entanto ouviu dois sons, que o técnico encarregado esclareceu serem o do sistema nervoso e o da circulação sanguínea. Embora a experiência que os surdos têm quando “sentem” música seja similar à experiência de ouvintes quando escutam música (pois segundo especialistas, em ambos, nessa situação, a mesma parte do cérebro é ativada), no mundo dos surdos as sonoridades são apenas conceitos abstratos. Mas segundo a Sueli, é possível vivenciá-las através da imaginação dos seus fenômenos, com o auxílio de sensações corporais.
    Esse relato me encantou pois nós, “ouvintes” – que é como eles chamam quem não tem a deficiência auditiva -, raramente paramos para pensar o papel da experiência sonora, com essa curiosidade e encantamento genuínos de quem entendeu, pela primeira vez, o som através de uma flatulência. E muito menos como as vivências aurais contribuem para o senso do mundo em que estamos. O nosso mundo particular, o nosso lugar.
    Para o geógrafo humanista Yi-fu Tuan, os lugares seriam os espaços aos quais imprimimos sentido e afeto “à medida que o conhecemos melhor e o dotamos de valor” – uma construção que requisitaria tempo e experiência direta, portanto. Apesar da obviedade de que o homem se relaciona com o mundo por meio dos seus cinco sentidos simultaneamente, é dominante no dia-a-dia a priorização dos recursos visuais e da visão como forma de se perceber, conhecer e apreender. Graças às características peculiares das orelhas – um par de órgãos imóveis e sem membrana de proteção – seríamos mais passivos e vulneráveis aos sons do que às imagens. Segundo o geógrafo, os sons, mesmo que vagamente localizados, podem transmitir um acentuado sentido de tamanho (volume) e de distância. Sem a audição, “a vida parece congelar e o tempo não progride, o espaço se contrai porque nossa experiência de espaço é aumentada grandemente pelo sentido auditivo(…) Um espaço silencioso parece calmo e sem vida não obstante a sua visível atividade, quando observamos, por exemplo, acontecimentos através de binóculos ou na tela da tv com o som desligado, ou em uma cidade abafada por um manto de neve fresca.” O som dramatiza a experiência do espaço.
    Cena 3 – Perda auditiva

    Outro dia cruzei com um amigo músico correndo no parque. Um pouco mais à frente, outro amigo, também músico, se alongando, ao ar livre. Me belisquei para verificar se não era um sonho. Pois há alguns anos atrás, era raro no meio, pelo menos no meu meio musical, aqueles que se preocupavam com a saúde dos seus corpos. Ultimamente, além de músicos que se exercitam e procuram seguir dietas mais saudáveis, reparei que existe uma preocupação maior com os próprios ouvidos. É claro que a idade e a informação impõem mudanças comportamentais como essas. Mas há uns quinze anos atrás, quando comecei a ingressar nesse mundo, eram poucos os que falavam de proteção auricular e menos ainda aqueles que usavam um para ensaiar, por exemplo. Hoje em dia, vários músicos carregam seus protetores pessoais como se fossem acessórios tão importantes quanto uma palheta, ou um pedal.
    Meus ouvidos já passaram por maus bocados. Horas ininterruptas editando com fones, ouvindo impactos de tiros e portas, freadas de carros, whooshes rasgantes e diversos outros sons. Já saí de vários shows e ensaios com dor de cabeça, com inúmeras performances ao lado de músicos empolgados, donos do poder da amplificação individualizada. O maior golpe sofrido, no entanto, foi como espectadora de uma performance de noise, num auditório com 16 alto falantes. De longe, foi a experiência auditiva mais traumática que já tive, no sentido físico/fisiológico: mesmo com as orelhas tapadas, os coitados que aguentam a porrada lá dentro se retraíram em defesa, demorando algumas horas para retornar às posições originais. Pela primeira vez, tive medo real de perder a audição.
    O otorrino, que curiosamente tem o nome do rei dos deuses da mitologia viking, o Dr. Odin, me receitou uma audiometria. O exame, pra quem nunca fez, é meio bobo, tipo, ficar repetindo palavras, levantar a mão pra sinalizar que ouviu alguma coisa. Tudo isso pra verificar se os limiares auditivos estão dentro dos padrões normais, como está o reconhecimento de fala, ou se já teve perda na audição em alguma faixa de frequência. Fui para o exame fazendo promessas de mudança no meu estilo de vida auditivo. Pronta pra interrogar o médico. Chorar, dependendo do resultado. Mas baixei a defesa quando o doutor deu o diagnóstico, já com a mão na maçaneta. – Tá tudo ótimo. Fiquei tão orgulhosa que até pensei em pendurar o resultado do lado dos monitores do home studio. Apesar de tudo, eles estão em boas mãos. E voltei pros fones.

    Cena 4 – Eles estão surdos

    Aqui no Paraná está tendo o maior carnaval.  Aplicaram o “pacotaço”. Tentaram usar o artifício do “tratoraço”. O povo gritou e deu o recado contra a falta de diálogo e a surdez de alguns políticos. Com paralisações, acampamentos e invasão à Assembléia. Mas também com panelaços, com marchinha em “homenagem” ao governador, com bailes de resistência, fantasias de porcos e camburão.  E o recado era algo como aquela música do Roberto Carlos com o Erasmo: “não importam os motivos da guerra / a paz ainda é mais importante que eles / esta frase vive nos cabelos encaracolados das cucas maravilhosas / mas se perdeu no labirinto dos pensamentos poluídos pela falta de amor. / Muita gente não ouviu porque não quis ouvir / Eles estão surdos!”

     

    Lilian Nakao Nakahodo

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    2 Comments

  • Alencar Júnior 03/03/2015 - 06:10 Reply

    Belo trabalho. Sob todos os aspectos que pude perceber. Técnico, estético e poético. Parabéns por levar, às pessoas que não dão a importância devida ao mundo dos sons, aos leitores desse artigo, a informação que estas precisam para “ver” e ouvir este mundo diverso e cheio de vida.

  • Lilian 05/03/2015 - 14:31 Reply

    Oi Alencar, grata pelo feedback! Nós ainda temos muito caminho pela frente. Mas vamos fazendo o que está ao nosso alcance :)
    Abra-som!

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