Vanguarda e música experimental

17 Posted by - 25/01/2015 - #1, ano 2, roberto votta

  • O pesquisador e compositor Frank Mauceri escreveu certa vez que com a adoção da tecnologia moderna, a música entrou em uma nova e complexa relação com a sociedade à qual pertencia e, ao analisar esta relação, examinou o emprego do termo “experimental”, no que diz respeito à música. Para o autor, o conceito de música experimental é menos controverso hoje em dia do que era nos anos 1950, com o estabelecimento da música eletrônica como vanguarda composicional. Entretanto, constatou que o termo “música experimental” se refere à música de vanguarda ou a música eletrônica de modo genérico e citou uma passagem do crítico e teorista alemão Heinz-Klaus Meztger, onde ele define este termo como um conceito abortivo, que não compreende seu objeto e é adotado como uma forma de evitar um estudo mais sério sobre o assunto. Mauceri afirmou ainda que o termo “música experimental” é muito usado para designar vagamente um gênero de obras cujos atributos comuns não são indicados por esse rótulo (MAUCERI, 1997, p. 187-8).

    De fato, o emprego do termo “música experimental” é habitualmente atribuído a uma categoria de obras que não pertencem a uma tradição completamente delineada e estabelecida, em outras palavras, define-se como “música experimental” aquelas composições que não são clássicas, românticas, modernas, atonais, tonais etc. Esta abstração inevitavelmente provoca uma generalização nociva nas reflexões e discussões sobre as obras e tendem a simplificar o entendimento de obras essencialmente de vanguarda como experimentais.

    O termo experimental refere-se a algo que tem fundamento ou é baseado na experiência, que usa experimentação, que é empírico. Experiência, por sua vez, tem sua origem no latim (experientĭa), entendido usualmente como uma prova, um ensaio, uma tentativa ou uma forma de conhecimento específico ou de perícia, que adquirida por meio de aprendizado sistemático, se aprimora com o passar do tempo.1 Nesse caso, ao definirmos uma composição musical como “música experimental”, corremos o risco de reduzir um labor composicional, muitas vezes baseado em técnicas claras e estabelecidas e rigorosos processos de elaboração, à um mero resultado do acaso, uma “experiência” que, no momento da criação, não tinha previsto os resultados do trabalho.

    Mauceri observou, ainda citando Metzger, que o termo “música experimental” foi utilizado inicialmente nos anos 1950 como uma tentativa de aproximar a música nova da ciência, e que esta aproximação foi sugerida pelos próprios compositores, que descreviam seus processos composicional e discutiam as composições se apropriando de termos científicos. O argumento que o autor usou é o de que essa apropriação indica uma alternativa conceitual para opor a música de vanguarda à música de concerto tradicional, e coloca no centro desta oposição a tecnologia que, muitas vezes, é o suporte para a composição de vanguarda.

    Assim, Mauceri propôs, observando o verbete “experimental music” do New Grove Dictionary of American Music, que a partir da década de 1960 o termo passou a criar uma oposição entre a vanguarda europeia, mais ligada à tradição e à técnica (como no caso do serialismo), e as obras dos compositores norte americanos, especialmente, John Cage, mais voltadas à inventividade e ao experimentalismo, no verdadeiro sentido da palavra (Op. cit. p. 188-192). Essa observação é mais pertinente e verossímil em relação às propostas e resultados da obra de compositores como Cage. Em 4’33’’, por exemplo, não existe uma previsão dos eventos sonoros que podem ocorrer durante a performance da peça, assim como a reação do público, desta forma, é possível considerá-la uma música experimental.

    Sobre essa perspectiva, o compositor Michael Nyman afirma que a distinção entre música experimental e música de vanguarda depende, em última análise, puramente de considerações musicais, e que envolvem o compositor, o interprete e o público (NYMAN, 1999, p. 2). De modo mais crítico e incisivo, o compositor francês Pierre Boulez define música experimental como um meio possível de restringir a um laboratório, que é tolerado, mas sujeito a inspeções, todas as tentativas de corromper as morais musicais, afirmando que tal se trata de uma utopia (BOULEZ, 1955).

    Estes dois termos, vanguarda e música experimental, não estão necessariamente ligados à tecnologia, do ponto de vista instrumental, mas sim à evolução de conceitos técnicos e estéticos da música, da cultura e da sociedade como um todo. Deste modo, é possível considerar obras que não utilizam suportes tecnológicos, como as obras seriais dos anos 1940 e 1950, como correntes de vanguarda, mesmo que estas obras estejam mais ligadas, de modo geral, à tradição, em especial pelos suportes de transmissão como a notação musical convencional e a execução instrumental. Não obstante, é possível considerar também dentro do conceito de vanguarda as correntes de música eletrônica, que embora não utilizassem, em primeiro momento, a notação musical e nem instrumentos convencionais, partiam de ideias bem definidas através de processos determinados e buscavam resultados específicos e, até certo ponto, previsíveis.

    PARA MAIS INFORMAÇÕES:

    BOULEZ, Pierre. Expérience, autruches et musique. In: Nouvelle Revue Française (NRF), Nº 36, pp. 1, 174-6, December. 1955.

    HOUAISS, A. & VILLAR, M. de S. Grande Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, Objetiva, 2001. Disponível em <http://houaiss.uol.com.br/>. Acesso em: janeiro de 2015.

    MAUCERI, Frank X. From Experimental Music to Musical Experiment. In: Perspectives of New Music, Vol. 35, No. 1 (Winter, 1997), pp. 187-204.

    NYMAN, Michael. Experimental Music: Cage and Beyond. Second Edition. Cambridge: Cambridge University Press,1999.

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