Um silêncio ensurdecedor.

3 Posted by - 25/01/2015 - #1, ano 2, bruno fabbrini

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    Sete e pico da manhã e alguma coisa desperta meu nervo acústico. As obras estão no estágio final, o maldito arranha céu, desproporcional, com o dobro de tamanho de todos outros prédios da rua, está praticamente pronto, mas alguém insiste em serrar concreto logo cedo, tenho certeza, é por querer.

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    A cidade ferve. Janeiro. Em meio a um calor insuportável, a cada ano parece pior, vou despertando. Suo só de respirar e não há ventilador que dê conta. Ontem no elevador o vizinho disse que passou o tempo que a cidade não precisava de ar condicionado, pode ser. Pela tarde provavelmente vem o temporal. Árvores cairão sobre casas, carros, parques e ruas e deixarão seu rastro na falta de luz e o pequeno caos subsequente, os semaforos em pane farão o trânsito aumentar e muitas ruas estarão alagadas, bairros inteiros semi-devastados. Todo verão parece igual, mas pior a cada ano. Esse nos surpreendeu pela questão dos ventos, quase pequenos tornados, varrendo o que vem pela frente. Em contrapartida aos pés d’água, falta água, mas o governador não admite e supõe resolver o problema criando taxas extras para a população, que então é culpabilizada, e igualmente castigada, pela incompetência do poder público em detectar, prevenir, planejar e combater ¿uma situação gerada pela natureza? Falta diálogo, sempre falta diálogo. Mas ‘as sobretaxas são educativas’. Difícil acreditar que os servidores públicos brasileiros queiram, ou saibam, educar alguém.

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    Do outro lado do mundo a conversa é sobre intolerância, sobre o ato de barbárie que gera inúmeras manifestações de paz, resistência e discussões religiosas e de cunho ideológico. Quem é Charlie, quem não é Charlie. Mais charges aparecem na mesma medida que mais ângulos e imagens da tragédia. O mundo, chocado, chora. Parece óbvio que não há defesa para o indefensável, bem como é óbvio que não se pode criticar e condenar uma religião por sua banda podre, bem como – não se sabe? – pode-se condenar uma nação por sua conhecida xenofobia e intolerância? O que é o terror, quem/ o quê o produz e quem o sente na pele ? Sim, os pontos são todos polêmicos, mas a evidência novamente se faz presente: parece não haver lugar para o diálogo, a intolerância reina, as diferenças não são aceitas:  parece não haver caminho possível, haverá algum?

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    Meu messenger toca, do outro lado um amigo diz querer conversar e na sequência me envia alguns podcasts dizendo que tem interesse em falar sobre som & cidade em um formato similar aos programas que selecionou. Diz querer compreender melhor o papel que esses sons ocupam em nossas vidas. Imediatamente me lembro do livro de Schafer (Murray) e seu belo título, O ouvido pensante. Não sei bem o que posso aclarear para ele, mas topo o papo e me volto para dentro, a  escutar minhas vozes, as angústias, a pensar nos sons, ruídos, silêncios e entrecortes desse calor insuportável, nas tempestades veraneias que venho gravando continuamente (da sala, do quarto, da cozinha), na água que se torna gelo, no estralo do granito derretendo no asfalto, nos furiosos raios e trovões interrompendo a força e nos levando a um estado de suspensão- falta luz, falta água e falta consciência coletiva, seriam as trevas voltando? Paro um pouco, tento respirar. 2015 parece ter começado. 2015 mal parece ter começado. Mais uma vez atrasado para um compromisso, me apresso querendo adivinhar: o que está por vir?

    Não sei. Não há mais, mas resta muito.

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