Too Many Poops

5 Posted by - 25/01/2015 - #1, ano 2, luis felipe labaki

  • Nesse começo de janeiro, lembrei do YouTubePoop. Já fazia pelo menos uns dois anos que eu não procurava por nada do gênero, e na verdade nem sabia se ele ainda existia com esse nome. Para quem não conhece, YouTubePoop é um tipo específico de vídeo de remix, mashup e variantes, geralmente feito abusando de efeitos de programas simples de edição de vídeo, como o Windows Movie Maker ou o (consideravelmente mais complexo) Sony Vegas. No site tvtropes há uma boa página sobre suas origens, principais técnicas e exemplos.

    E, respondendo à minha própria pergunta, sim, ele ainda existe:

    Eu devo ter visto um vídeo categorizado como YouTubePoop pela primeira vez em 2009 ou 2010 – surpreendentes cinco ou seis anos atrás –, mas pesquisando nesses últimos tempos descobri que o gênero é mais antigo que isso, quase tão antigo (‘antigo’) quanto o próprio YouTube, e que a comunidade de poopers é ainda maior do que eu supunha. Desde 2007, por exemplo, existe um site chamado YouChew que reúne milhares de poops e poopers em um fórum de discussão. Foi nele que eu encontrei o exemplo acima e outros que me mostraram que o poop continua vivo e bem.

    Uma década já é um tempo bastante razoável para o desenvolvimento de uma linguagem, especialmente num meio de trocas rápidas como são os fóruns e o próprio YouTube. No YouChew, por exemplo, há inclusive sub-categorias de poop: “Regular” (vídeos nos quais prevalece um equilíbrio entre as características mais marcantes das demais categorias), “YTPMV” (‘YouTube Poop Music Videos’), “Brain Rape/Rape-core” (do qual o vídeo acima é um representante), “Sentence mix-core” (vídeos com ênfase no embaralhamento de sílabas e palavras de uma frase para criar novos sentidos)  e “Classic”.

    Há, portanto, diferentes correntes e agrupamentos de realizadores que se identificam com um estilo ou outro, e mais: encontrei em diversas situações referências já um tanto nostálgicas a determinadas correntes de poop de anos passados (nas linhas de ‘this is so last year’ e etc.), como um vídeo que se apresenta em sua descrição, um tanto jocosa, como um tributo a poops de outras eras que “fornecem inspiração que nos chega até os dias de hoje”.

    Em uma entrevista de 2011, Conrad Slater, fundador do YouChew, fala entre outras coisas de um momento de crise no site em que lhe pareceu que os novos poopers estavam apenas repetindo velhas fórmulas, sem trazer nada que contribuísse para o “desenvolvimento da arte do poop”. Será um sinal de que estamos nos aproximando daquilo que Frank Zappa identificou como a ‘morte por nostalgia’, com tempos cada vez menores entre ‘o evento’ e a ‘nostalgia pelo evento’?

    Revendo algumas coisas antigas e assistindo algumas novas, me surpreendi com a previsibilidade (e falta de graça ou qualquer outro apelo) da maioria deles. Mas isso talvez só reforce a consistência do YTP enquanto gênero: qualquer definição vai descrevê-lo como baseado em alguma medida na “aleatoriedade” dos materiais utilizados, na intervenção direta nestes fragmentos escolhidos, no non-sense sem linha narrativa que aproximaria os vídeos de obras surrealistas, dadaístas, etc. Sim, é verdade – ainda que muitos poops sigam a linha de algum determinado episódio de alguma série, apenas inserindo novos elementos, modificando frases, alterando cronologias, etc. – mas é também verdade que essas operações “non-sense” acabam se repetindo à exaustão e sendo retrabalhadas por diferentes usuários, de modo que uma gramática específica do poop logo acabou se estabelecendo. Se não podemos prever exatamente qual meme será sobreposto à cabeça de qual personagem, sabemos que algo assim acontecerá em algum momento; se não sabemos qual fala ou palavra escrita na tela será sobreposta por um palavrão (ou, no caso dos poops brasileiros, talvez pelo Faustão gritando ‘Olôco!’ ou pelo SouFoda), sabemos que inevitavelmente isso vai acontecer – e provavelmente mais de uma vez. É por essas e outras que o poop é um gênero, com todo seu conjunto de convenções em cada uma de suas sub-divisões. Há poops bons e poops ruins. E, se há mais ruins do que bons, isso não é nenhuma exceção à regra.

    Falando em poops brasileiros, é divertido procurar por vídeos de diferentes países e notar como as estratégias e matérias-primeiras em alguma medida se repetem (jogos antigos em CD-i da Phillips, Bob Esponja etc.), mas o mais interessante é ver como cada país acaba misturando esses elementos comuns a seu próprio caldo de referências culturais. A série de vídeos “Dodgeball” , de 2010 – cada vídeo, feito por um pooper diferente, deveria ser uma resposta realizada diretamente sobre o seu predecessor –, provavelmente é o melhor exemplo do que era então o YTPBR, a vertente brasileira do gênero, com muito Chaves, Carga Pesada, novelas da Globo, vlogs e funks.

    Mas falando sobre matérias-primas comuns, encontrei diversos poops mais recentes, de vários países, usando episódios do desenho Hora de Aventura. O principal ponto em comum é que todos me pareceram inevitavelmente sem graça. Ou melhor: o que havia de mais engraçado vinha do próprio desenho e não das intervenções dos poopers. Talvez eu só tenha dado azar. Mas talvez isso tenha a ver com o reflexo do gênero (e de outras correntes da internet) na indústria cultural: o próprio Hora de Aventura já parece ter assimilado em algum nível as descontinuidades e estratégias (dramáticas, inclusive) do universo poop e dos mashups e remixes de Youtube etc., sendo que as músicas cantadas pelo personagem Finn com autotune exagerado na voz talvez sejam apenas o exemplo mais evidente. O curta “Too Many Cooks”, exibido no Adult Swim do Cartoon Network, também deriva ao menos parcialmente desse universo, algo como um “poop em live-action”, ou “poop premeditado”, com gritos saturados, loops infinitos, lasers, glitches e etc.

    E, no caminho inverso, a página sobre YTP no tvtropes traz um exemplo divertido de um poop avant la lettre, feito pela campanha de Richard Nixon para enfrentar Hubert Humphrey em 1968:

    Vou encerrar resgatando um exemplo ainda mais antigo. Trata-se do “Lambeth Walk: Nazi Style”, de Charles A. Ridley, feito em 1941:

    Luis Felipe Labaki

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    2 Comments

  • alexandre 26/01/2015 - 23:41 Reply

    resgatando mais um “poop avant la lettre”, o “Passage à l’acte” do Martin Arnold, em cima de uma cena de “How to Kill a Mockingbird”

    acho que as versões HD, se existiam, foram tiradas do ar =(
    mas dá pra sacar:

    https://www.youtube.com/watch?v=0jJtSv-o-m4

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