Solo e ruína

4 Posted by - 25/01/2015 - #1, ano 2, sérgio abdalla

  • O solo é aquilo que se toca sozinho. Aquilo que se ouve de alguém que toca sozinho. O que soa sozinho.

    O solo não é ele mesmo sozinho; é acompanhado de um instrumentista que sola.

    O solo pode ser uma parte do todo tocada em separado. Vemos partes de um todo separadas quando em situação íntima, sozinhos, estudando, ouvindo alguém estudar. Vemos essas partes sem saber o que é o todo de que são partes. Esse é o aspecto particular, de partícula, do que se deixa ver como solo.

    A parte pelo todo é um pouco o que há no solo. Porque, ao chamar solo, ele marca a falta do resto que não comparece. Por exemplo, se vejo um professor professar sua aula, não digo que é solo, mas sim que é aula. Mas se um músico toca sozinho, é solo, é marcadamente ausência de todos os outros músicos.

    A parte pelo todo porque decide-se que é parte (solo, sozinho, solidão, cadê os outros), e em seguida decide-se que, mesmo assim, é música (um belo solo; mas parecem vários tocando!; puxa, não precisa de mais ninguém, esse aí).

    De um solo se espera muitas vezes que seja virtuosístico, ou de seu executante que seja virtuoso. Se a virtude for uma potência de fazer algo, espera-se do solo que seja potente. O solo que não é virtuoso se põe em evidência e passa vergonha. A virtude pode ser a de se lançar no caos de uma apresentação solo, onde realmente faltaram todos os seus amigos pra te ajudar. A falta de virtude pode ser querer guardar alguma interioridade, guardar algo que não está lá, mas sim em casa, guardar algo que não veio consigo, manter algo fora do palco como dizendo “isso não é tudo”. E pode ser proposital, mas aí é como se fosse meio solo. É como se se quisesse guardar a virtude (a potência) para que ela não gastasse, não acabasse. Mas solo é ou tudo ou nada.

    Uma das coisas que gosto de fazer é tocar muitas notas em sequência em algum instrumento que eu saiba como tocar. Existe um prazer que é um pouco fisiológico em tocar muitas notas, e em tocá-las rapida e plenamente, como num solo virtuoso. Ele é fisiológico, é intelectual, é tudo, e nem é tão grande, porque depois de muito solar – aí, nesse caso, realmente solar solo, sozinho, sem platéia –, não tenho quase nada em mãos além de pequenas dores.

    A despeito de não sabermos necessariamente o que se quer dizer com “nota” nesse caso, podendo ser uma bela nota que soa límpida ou um ruído muito complexo que não se sabe quando começa ou termina, algo é certo, nesse tipo de solo: põe-se o corpo numa certa posição e toca-se uma nota. E, em seguida, várias.

    Existe um aspecto de exercício físico e mental, de exercício enfim, em tocar muitas notas. No exercício da profissão, o músico, quando se coloca em situação solo (cadê meus amigos), está pronto a uma exibição pública de seu corpo-máquina. Máquina de tocar muitas notas. E é um teste, a platéia sendo uma outra máquina que testa se aquele produto (o corpo do solista) está bom para ser vendido.

    O vídeo abaixo está descrito como solo arruinado. Não concordaremos que foi arruinado, e talvez achemos que aí sim é que ele ganhou vida, mas temos de perceber que, se o objetivo do solista era fazer um bom trabalho de seguir sua partícula de música sozinho, como se estivesse expondo sua intimidade mas ainda guardando-a para si –e parece que era–, ele perdeu.

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