Cores & Valores

6 Posted by - 25/01/2015 - #1, ano 2, tiago de mello

  • Há algum tempo, venho dizendo que as melhores coisas feitas na música brasileira eram (sem ordem de preferência) Caetano Veloso, Racionais MC’s e Marli.

    No meu primeiro texto aqui na linda, falei sobre a Marli e seu Maremotrix. Fico muito feliz de ter sido um dos textos mais lidos na revista até hoje! Marli me foi apresentada lá por 2004, quando eu já era o cara com gosto estranho entre os amigos, e fui acompanhando com muito entusiasmo os desenvolveres do projeto. Acho o Maremotrix algo de que se orgulhar!

    Já na nossa primeira edição bilingue, a linda-i, coloquei um texto que tratava sobre a condição ocidental do Brasil, terminando com uma passagem do Verdade Tropical do Caetano Veloso.

    Caetano e Racionais fazem parte da minha infância. Caetano sempre foi o ídolo número 1 da minha mãe. E, analisando com distância, fico muito agradecido por ela ter se atualizado do próprio ídolo: muitos dos meus amigos que gostam de Caetano ficaram no Transa e é isso; reclamam do Caetano autorefencial e controverso dos anos seguintes e atuais; minha mãe ouvia o Tropicália 2 em pleno começo da década de 90 (o disco foi lançado em 93). Até hoje, quando limpamos a casa e eu sugiro de ouvirmos algo do Caetano, ela sugere discos como O Estrangeiro, ou se propõe a ouvir o que ele tem feito atualmente.

    Neste primeiro texto para o segundo ano da linda, gostaria de falar sobre o último disco do Racionais MC’s a partir dessa perspectiva: a perspectiva anti-estanque, que se propõe a ouvir o contemporâneo, antes do saudosismo que parece impetrar a maior parte dos escritos musicais (e não apenas entre os escritores dos clássicos: os contemporâneos não se cansam de escrever sobre os Berios e Ligetis e afins). Assim, o texto que se segue segue como esparsas ideias que venho tendo a partir do contato diário com o Cores & Valores, álbum lançado digitalmente no final do ano passado.

    A crítica e a mudança social

    A primeira coisa que me chamou a atenção no disco foi o despreparo da crítica em receber o trabalho. Não sei se de toda crítica, acompanhei somente aquelas à minha volta. E pude deparar com comentaristas de música em rádios de grandes corporações, chamando o disco de “apenas bom” e dizendo ser uma pena o grupo ser “mal assessorado”, uma vez que em 12 anos, foram capazes apenas daquilo. Esse crítico, por fim, analisava uma possível superação dos problemas de ordem sócio-econômicas, “agora eles entenderam que o problema não é mais a polícia contra o bandido, o rico contra ‘a gente’, mas que o buraco é mais mais embaixo e que estamos todos juntos”, dizia ele algo assim.

    Bem, me parece que o buraco é mesmo mais embaixo, mas todas as relações apresentadas no disco são auto-referentes, no sentido em que exploram sentimentos e relações antes discutidos pelo grupo. Se há uma mudança social representada, ela é, claro, fruto das mudanças sociais que aconteceram no Brasil nos últimos 12 anos, mas que já estavam germinadas nos últimos discos, como a ascensão financeira das pessoas à volta, do desejo de mudança social.

     

    Lançamento digital

    Lembro que o último lançamento de estúdio do Racionais foi controverso: Nada como um dia após o outro dia (2002) era um CD duplo que vinha com preço sugerido na capa!

    Nada como um dia após o outro dia

     

    Cores & Valores foi lançado apenas virtualmente, nas lojas de distribuição de MP3. Se a atitude de vender um CD com preço sugerido na capa nos surpreende, o mesmo ocorre com um lançamento apenas virtual, sem perspectivas (até o momento) de lançamento físico. Vejo aqui uma posição não estanque no pensar indústria-fonográfica do grupo: teria sido fácil simplesmente repetir a fórmula, ou aplicar outras fórmulas já consolidadas. É claro que lançamentos meramente virtuais estão aos montes ao nosso redor, na música experimental, mas na música comercial não tenho visto tão facilmente.

     

    Autoreferência

    Caetano é repetidas vezes acusado de ser autorreferente (embora eu não veja exatamente onde ou porquê). Porém, sem que se tome o termo por perjorativo, vejo em Cores & Valores uma série de referências aos trabalhos antigos do Racionais, mais ou menos claros.

    Auto-sampleamentos não são nova coisa no grupo: já em Nada como um dia após o outro dia já tínhamos sampleamentos de Sobrevivendo no inferno. O que muda aqui agora é a transformação aplicada: “Na mão de favelado é mó guela“, tirada de Vida loka parte 2, vira um mantra, loopado de diferentes formas (como sample mesmo, e como texto), na faixa Eu compro do novo álbum.

    Essa faixa conta ainda com uma auto-referência não tão explícita. No primeiro verso da música após o tal mantra, ouve-se:

    Olha só aquele shopping, que da hora!
    Uns moleques na frente pedindo esmola
    De pé no chão, mal vestido, sem comer
    Será que alguns que estão ali irão vencer?

    Com alguma facilidade, podemos ligar esses versos ao primeiro grande sucesso do grupo, Fim de semana no parque:

    Olha só aquele clube que da hora,
    Olha o pretinho vendo tudo do lado de fora
    nem se lembra do dinheiro que tem que levar
    Pro seu pai bem louco gritando dentro do bar
    nem se lembra de ontem de onde o futuro
    ele apenas sonha através do muro…

    Aqui, uma vez mais, podemos ver que as relações sociais ditas superadas não são novidade dentro da poesia do grupo.

     

     

    Tiago de Mello

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