Caminhada Silenciosa

3 Posted by - 25/01/2015 - #1, ano 2, luisa puterman

  • Caminhada Silenciosa é um projeto interessante. Desenvolvida pela artista Vivian Caccuri a caminhada é uma “performance na forma de um itinerário urbano feito para um grupo de quinze a vinte pessoas. O trajeto possui oito horas de duração e é feito sob voto de silêncio. Durante esse tempo, o grupo passa por lugares com problemas acústicos, atividades sonoras e ruídos de diversas naturezas.”

    Em uma extrapolação um tanto óbvia, os termos musica concreta, composição live e eletroacústica parecem escoltar as premissas históricas pelas quais a caminhada perpassa. A sucessão de paisagens sonoras e pequenos eventos acústicos aliados a reflexões densas sobre o silêncio, o som e a comunicação permeiam a experiência e propiciam uma espécie de permutação filosófica entre todos esses elementos.

    O silêncio, assunto denso, complexo, relativo e infinito se apresenta no projeto principalmente através do voto, que por ser a única regra, se torna algo comum a todos os participantes. O fato é que o voto de silêncio possui uma potencia única, algo entre o relaxamento e a tensão. Isso é bastante perceptível, pois, o grupo ao se deslocar pelo trajeto proposto causa um estranhamento em quem observa. No entanto, esse observador dificilmente identifica o silêncio como fator intrigante. É contraditório mas, um grupo grande em silêncio possui uma surpreendente presença.

    O som acontece a todo instante, tudo vira som, os sorrisos e os olhares principalmente. O voto torna a audição extremamente sensível. A sucessão de sons ao longo do trajeto vai aos poucos se exibindo como uma grande sinfonia da vida. Entre máquinas e humanos uma composição subjetiva e live atravessa os pensamentos que, mesmo não transmitidos, fazem muito barulho.

    A comunicação é reciclada e se transforma. A popular função fática é substituída por outros gestos e comportamentos curiosos. O silêncio impõe outra existência. A comunicação transborda e encontra novos meios de se manifestar. Os fluxos de informação se reestruturam e os estímulos externos penetram intensamente o receptor. Esse movimento gera uma simples preguiça no ato em que se encerra a performance coletiva: não há a menor vontade de falar. Após oito horas, um tipo de inercia se instala no cérebro que parece desejar o permanecer e o cultivar do som do silêncio.

    A caminhada silenciosa se mostrou ser um belo exercício sonoro. Ela acontece com certa frequência em várias cidades e contextos distintos. Para mais informações acesse a página do projeto: facebook.com/caminosilencio?fref=ts

    LUISA PUTERMAN

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