Conversa com VANIA DANTAS LEITE

0 Posted by - 17/11/2014 - conversa

  • Esta coluna da linda tem o objetivo de conversar com pessoas de uma geração da música eletroacústica no Brasil, que estiveram em atividade intensa próxima a ela, quando ainda não havia esta revista. Nesta edição, tive o prazer de bater um papo com Vania Dantas Leites, compositora. Vania Dantas Leite nasceu no Rio de Janeiro, em 1945. Graduou-se em composição pela UFRJ e teve uma carreira diversificada, como pianista, cravista, regente e, principalmente, compositora. Lecionou composição e matérias ligadas à música e tecnologia na graduação e pós-graduação da UNIRIO até 2012. Iniciou suas atividades nessa universidade nos anos 80, em diferentes cadeiras da graduação. Sua produção artística representa a força e criatividade da música eletroacústica brasileira, tendo trabalhado, por exemplo, com meios eletrônicos ao vivo e intérpretes (música mista), e interação entre linguagens artísticas, em diversas obras, quando essas possibilidades eram bem mais difíceis de serem aplicadas. Aqui vai nossa conversa.

     

    DANIELHoje é dia 14 de novembro de 2014, estou aqui com Vania Dantas Leite, minha querida orientadora no doutorado, na casa dela, em Botafogo. Queria então começar perguntando como é que você se apresentaria pra uma outra pessoa que gosta de música? Como você falaria de você, do seu trabalho?

    Normalmente eu me acho compositora, me sinto compositora, embora não componha muito. É que sou muito velha, né (risos), então, tenho muitas obras, mas componho pouco. Foi a coisa que mais se estabeleceu na minha carreira. Fui cravista, pianista, toquei contrabaixo — não cheguei a ser uma grande contrabaixista, mas aprendi, toquei na orquestra, um pouquinho. Fui regente, cheguei a ganhar um concurso de regência, também. Tinha muito interesse em fazer regência, mas na época, início dos anos 70, essa questão ainda era muito complicada: uma mulher regente? Acho que agora melhorou muito. Eu era muito jovem, tinha vinte anos, mal comecei e desisti logo. Quer dizer, não que tivesse desistido, mas achei que eu tinha outros objetivos também. A regência te liga um pouco à orquestra, à música tradicional, e eu tinha muito desejo de fazer uma música do meu tempo.

     

    DANIEL: Então, você diria:eu sou compositora’.

    É, acabou que o que ficou foi isso, mas continuo fazendo tudo. Toco piano, se precisar posso tocar cravo, mas não sou mais profissional disso. Não vou fazer concerto de piano, porque não estudo pra isso. Poderia até voltar, mas ainda prefiro a composição. Você tem que optar realmente.

     

    DANIEL: A gente tava falando agora há pouco, sobre essa questão do futuro da música eletroacústica. Como é que você vê isso, como você vê a música eletroacústica hoje, o que você enxerga que são caminhos que te chamam a atenção?

    Ah, essa pergunta é muito difícil! (risos)

    Pois é, uma coisa que me chama a atenção, e não é só a mim, estava conversando sobre isso com Annette Vande Gorne, que esteve aqui esta semana [pioneira da música eletroacústica na Bélgica, está no Brasil para uma residência junto à UNESP, e passou pelo Rio de Janeiro, onde fez uma palestra na UFRJ]. Tive a oportunidade de estar bastante com ela, saímos, jantamos juntas, ela veio trabalhar no meu estúdio. Realmente, a música eletroacústica é uma tribozinha, muito pequena. Nós nos conhecemos pelo mundo todo. Não é uma coisa que se espalhou pelo mundo, de jeito nenhum. Ela continua num gueto bem fechado.

     

    DANIEL: Ainda hoje?

    Ainda hoje. Estou falando da música eletroacústica da nossa linguagem, né? Dessa que a gente conhece, a clássica, que veio da concreta e da eletrônica, que tem uma estética. Porque, acho que é isso que define a música eletroacústica, é a estética que ela utiliza, que está ali envolvida, comprometida com os meios de fazer, com as técnicas dela… que se abriram muito para a música eletrônica, pra música popular. Há uma diversidade enorme de manifestações da música eletrônica popular, mas não é música eletroacústica, na minha opinião. Não sei como será o futuro dela. Acho que ela continua existindo, pra muito pouca gente. Talvez agora com os meios de comunicação muito mais expandidos, também através da internet, da web, a gente tem mais chance de mostrar os trabalhos e muda muito a situação. Até porque, na minha opinião, a música eletroacústica não é uma música de concerto. A não ser que seja tratada de uma maneira especial, como a própria Annette [Vande Gorne] nos mostrou aqui: existe uma situação de execução da música eletroacústica. Isso, na minha opinião, nunca aconteceu aqui entre nós, a não ser de maneira muito precária, muito simples. Ela acontece dentro das salas de concertos de música tradicional, que se adapta do palco italiano para uma difusão, no máximo em oito canais.

     

    DANIEL: Aí você está se referindo, por exemplo, ao Acousmonium, da Annette?
    [O Acousmonium é uma orquestra de alto-falantes, um conjunto grande de diferentes caixas de som, dispostas assimetricamente em uma sala, através do qual exploram-se características tímbricas e, especialmente, possibilidades de espacialização, ou seja, de movimento do som no espaço de apresentação.]

    Dos Acousmoniums em geral, não só dela mas de outros lugares também, como você tem em Viena, como você tem em festivais em vários lugares da Europa. Não são muitos, também. Nos Estados Unidos, por exemplo, nunca vi isso. É como aqui no Brasil. Acho que não existe essa prática da performance da música acusmática, não vejo isso. Eu mesma tive uma péssima experiência com isso. Quando fomos a Nova Iorque em 1996, veio um compositor americano ou produtor, não me lembro (acho que era mais produtor, do Carnegie Hall), escolher alguns compositores para se apresentarem no festival Sonidos de las Américas, que nesse ano seria dedicado aos compositores brasileiros. A Academia Brasileira de Música chamou compositores para entrevistas (houve uma seleção de todo Brasil) e aqui do Rio de Janeiro me chamaram e escolheram uma peça que era uma tape music. Fiquei muito feliz, mas também preocupada: “como é que vou tocar isso no Carnegie Hall, no Weill Recital Hall, aquela sala linda, maravilhosa, espetacular?” Porém, será que eles entenderam que isso não é exatamente… a peça que eles escolheramera até muito próxima da música acústica, porque fiz a partir de instrumentos acústicos: um berimbau de boca e um violão preparado.

     

    DANIEL: Como chamava?

    Sforzato / Piano (está em um CD da RioArte). Mas ela lembra muito a situação da música acústica, até porque ela utiliza recursos acústicos praticamente sem muito processamento e transformação. São as duas coisas, tanto mostro o material não processado quanto o material processado, existe um diálogo entre essas duas situações. Fui com muito medo do que ia acontecer, e aconteceu a mesma coisa com o Flo Menezes, também escolheram uma tape music dele. Quando cheguei lá e vi que eles não iam me dar mais do que dois alto-falantezinhos muito precários, naquele palco, e todo o resto eram instrumentos, tratei de dar um jeito na minha situação. Peguei um percussionista maravilhoso, que tinha ido conosco no grupo, e falei: “Você quer improvisar em cima do meu tape? Porque você tem tudo a ver, seus instrumentos e tal” e ficamos trabalhando juntos, uns dois, três dias, antes do concerto. O percussionista foi o Dalga Larrondo, que é maravilhoso, ele estava fazendo uma performance em que a roupa que ele vestia era a percussão. Era uma performance mesmo, ele era um pássaro que estava no palco: o levantar das asas criava a música, a partir dos movimentos do corpo dele e da fantasia que ele utilizava. Ele é mineiro, toca muita música antiga, contemporânea, compõe também, a partir da performance. Enfim, tinha um instrumental muito interessante com ele, e nós escolhemos um tambor que tinha muitas possibilidades sonoras, maravilhoso, e foi assim que resolvi o meu problema.

     

    DANIELQue coisa. Você lembra de algum outro episódio ligado à música eletroacústica, que você acharia legal compartilhar com a gente?

    Tive muitas histórias engraçadas, com meus instrumentos também. Por exemplo, quando cheguei com o Synthi AKS [http://goo.gl/fXZawS] aqui no Brasil. Uma malinha de executivo, toda fechadinha, trancadinha, quando você abre, vê aquele monte de potenciômetros, de furos, pra tudo que é lado… Na época, me chamaram para dar cursos, foi um projeto do SESC, se não me engano, em que fazia workshops de música eletrônica em várias universidades do Brasil e tinha que viajar levando o Synthi. Numa das viagens, pra Porto Alegre, assim que cheguei no aeroporto, me mandaram abrir a mala. Quando abri, os caras me prenderam! achando que eu tinha uma bomba nas mãos (risos)… uma coisa suspeitíssima… não entendi nada, fui retida no aeroporto um tempão, até conseguir explicar que aquilo é um instrumento musical. A sorte é que o Synthi tem dois alto-falantezinhos embutidos, né? “Tudo bem, ele faz som, mas música, não! Música é outra coisa.” (risos)

     

    DANIELEssa é ótima! É até legal dizer, o Synthi da Vânia está aqui no estúdio ainda, em funcionamento.

    Funciona até hoje, é. Gosto muito dos meus instrumentos antigos. No último trabalho que fiz este ano, utilizei ele, para fazer um desenho sonoro sobre um vídeo da Valéria Costa Pinto, Longe ao Sul, com poesias de Elizabeth Bishop. Queria criar uma ambiência pro video e a poesia, que já estavam ali bastante presentes. Acho que resultou bem. Ainda me viro bem com o Synthi (risos).

     

    DANIELE lá da Bélgica? Você falou da Anette Vande Gorne… e você passou um tempo lá, com o Leo Kupper

    Passei… Leo tinha me convidado pra fazer uma peça lá, no Studio de Recherches Electroniques Auditives, dele. Fui duas vezes. Na primeira, fiz Di-Stances [http://goo.gl/3C1dF6, primeira música-vídeo da compositora, parceria com Paulo Garcez, artista plástico], em 1982. Passei rapidamente e fui só pra compor essa peça. Depois, voltei pra fazer um trabalho com ele, em 1985. Ele queria fazer uma exposição em um lugar chamado La Médiatine, também em Bruxelas, e ia dar muito trabalho. Ocupamos umas seis salas, com vários acontecimentos diferentes. Tinha automações, salas onde as pessoas entravam, que captavam as vozes das pessoas — o difícil era as pessoas falarem, porque estávamos na Bélgica, né (risos)… se fosse no Rio de janeiro, já viu que ía ter pano pra manga (risos)… mas lá, o belga primeiro olha, olha, olha, calado assim. Fica muito cabrero, “não sei o que tá acontecendo aqui”… até eles entenderem… um suspiro, um no ouvido do outro, sussurrando, todo mundo fala baixinho… mas, assim mesmo a gente conseguiu. Tinha uma sala de automação, que, a partir dos impulsos captados pelos microfones, pendurados do teto — e eram muitos —, acionavam-se microcomputadores, uma porção de maquininhas espalhadas numa outra sala, que então emitiam determinados fragmentos musicais, que íam pra outras salas. Era muito interessante. Tinha salas de concerto, tape music. Na época era tape music mesmo, o suporte ainda era fita magnética. Ou concertos mistos. Num dos concertos, fizemos uma peça minha, A-Jur-Amô, para voz e fita magnética, executada pela Géraldine Ros, que na época era esposa do [György] Ligeti. Enfim, tinha concertos praticamente todas as noites, durante os dias em que ocupamos esse lugar. A ideia era essa: trabalhar com ele, aprender um pouco das novas tecnologias, que ele tinha no estúdio dele, que ele desenvolvia. E acabei ficando mais tempo. Conheci mais gente, a Anette mesmo, que me convidou pra fazer uma peça no estúdio Métamorphoses d’Orphée. Na época, só tinha o estúdio analógico, foi há muito tempo já… em 1986.

     

    DANIELQue a gente viu, agora na palestra, que ela ainda mantém, funcionando

    Sim, tão lá os gravadores… Tenho uma foto minha, exatamente naquele lugar que ela mostrou na palestra, operando a mesa, mixando a peça que fiz lá, L’Indien et L’Owini.

     

    DANIEL… podemos colocar essa foto na linda?

    Podem! Outro dia estava separando uma foto que o Arrigo Barnabé tinha me pedido. A gente tem uma foto juntos, desse festival lá em Nova Iorque, do Carnegie Hall. Porque fomos dar aula em Princeton, fazer uma workshop lá, ele e eu, no mesmo dia, e tiramos um monte de fotos. E ele perdeu… Eu ainda tenho, mas cadê? (risos) Tem que achar. É muita coisa. Tenho tudo em casa ainda, guardo tudo! Coisas da própria história da música eletroacústica: crítica de jornal… muita coisa mesmo, que acho que tenho até a obrigação de um dia escanear, organizar isso tudo num site, pra disponibilizar pra pesquisa, porque são documentos! Tenho fitas magnéticas, muitas, e tenho também uma Revox A-700, que não roda mais, infelizmente, que tem que consertar.

    Estúdio Métamorphoses d'Orphée, de Anette Vande Gorne, em 1986.

    Estúdio Métamorphoses d’Orphée, de Anette Vande Gorne, em 1986.

     

    DANIELRealmente, você tem uma documentação incrível. Já tive a oportunidade de ver algumas coisas… Você tem alguma história, do pessoal do Estúdio da Glória ou algum outro lugar do Brasil?

    Não cheguei a fazer parte do Estúdio da Glória, na verdade. Tinha meu estúdio em casa, na Lagoa, num apartamento duplex, uma cobertura de um prédio baixinho de cinco andares. No quinto andar, que seria o terraço, fiz um estúdio. Já estava na UNIRIO, trabalhava lá [como professora] 20 horas, dava aulas de Análise. Fiz esse estudiozinho pra mim, tipo um home studio, mas também fazia trabalhos comerciais pra poder manter, porque ali era caro. Pagar uma máquina de ar-condicionado central ligada dia e noite… era um estúdio bem profissional, podia até alugar. Foi projetado pelo Claude Venet, que era um arquiteto francês, que esteve aqui nessa época, 79 ou 80, se não me engano, quando ele projetou alguma coisa pra Globo e projetou esse meu estúdio. Nessa época, trabalhava muito com teatro. Eu mesma produzia, compunha, tocava, fazia tudo e ainda entregava a produção pronta, masterizada. Fiz algumas peças, sem muitas concessões — essas peças eram peças de grupos interessantes, não eram qualquer peça.

    Tinha esse meu estúdio, e Rodolfo Caesar, Tim Rescala, Tato Taborda e eu tínhamos um conjunto, chamado Conjunto Vazio (risos)… esse conjunto esvaziou rápido (risos!), mas o tempo que durou, foi muito bom! A gente fez muita coisa juntos e foi uma época muito rica da música eletroacústica aqui. Começamos a ter acesso ao Parque Lage e organizávamos coisas por lá. Organizei até mesmo a vinda do Leo Kupper ao Brasil, junto com Chico Mário (irmão do Henfil). Aí, o pai do Tim ofereceu uma sala na Glória, que era onde ele trabalhava, acho que com restauração, e o Tim começou o estúdio dele ali, que ele chamou de Estúdio da Glória, e eles tomaram o rumo deles. Eu tinha meu estúdio e Tim tinha aquele estúdio, que era o Estúdio da Glória. Depois, acabei até fazendo uma peça lá, que foi justamente Sforzato / Piano, que foi pra Nova Iorque. Tinha voltado de Bruxelas e estava morando num apartamento pequeno, sem estúdio, e fiz uma peça lá.

     

    DANIELVania, você acha que existe uma cultura eletroacústica?

    Existe, acho sim.

     

    DANIELComo é que você vê as marcas dela?

    Olha, infelizmente, é um gueto, mas ele existe! Lembro que cheguei a primeira vez na minha vida na Radio France com uma musicista francesa e eles me reconheceram e não reconheceram a francesa! (risos) Então, quer dizer, a pessoa que é da turma: “Ah, já sei, você é a Fulana, de tal lugar, do Rio de Janeiro…” É um mundo muito pequeno, realmente, mas existe, sim, uma cultura da música eletroacústica. Não somente da corrente concreta e eletrônica, como a gente vê a música eletroacústica, mas de um todo da música experimental. Não gostaria de isolar a música eletroacústica. Até porque, Schaeffer chamou de música experimental a primeira vez que ele começou a trabalhar nessa situação: era experimentação. Depois, quando, nos Estados Unidos, surgiu também esse termo, a coisa começou a ficar meio esquisita. Alguns até diziam que “experimentar é pra quem não sabe fazer” — perdeu completamente o sentido da experimentação. A experimentação, é a situação de você compor experimentando, é uma outra coisa. Não é fazer qualquer coisa. Como ficou com essa conotação, Schaeffer não quis mais chamar de música experimental. Mas, hoje vejo que todas essas músicas que faziam parte desse conceito de experimentar, estão aí. Inclusive as correntes americanas, como John Cage e outros… Cada corrente toma um rumo diferente, e a música eletroacústica também, ela tem seu espaço. Acho que agora ela está encontrando mais situações favoráveis a ela, como as instalações sonoras, por exemplo… Nós temos que buscar espaços fora da sala de concerto. Espaços adequados. Sempre tive essa preocupação aqui no Brasil, desde que comecei a fazer esse tipo de música, na década de 70. Nunca consegui levar a cabo isso de uma maneira satisfatória. Pra você partir pra uma coisa dessas, você realmente tem que ter um suporte financeiro muito grande. Você tem que criar espaços acusmáticos, com difusão, e tudo isso custa muito caro. Fazer isso seriamente é caro. Um alto-falante já é uma fortuna, imagina quarenta! Na Europa, por exemplo, em todos os festivais em que participei, de música de difusão, com o Leo e na Holanda, eles tinham a preocupação, inclusive, de colocar tudo no seguro. Até o indivíduo que entrava lá, porque se cai um alto-falante em cima de alguém, mata.

     

    DANIELBom, Vania, pra terminar, o que você diria pra esse pessoal, como eu, e mais jovem ainda, que está querendo fazer música eletroacústica, fazendo de fato…?

    Diria o seguinte… olha pra frente! Não olha muito pra trás, não. O que tá feito, tá feito. Por exemplo, a nona de Beethoven, jamais deixará de ser a nona de Beethoven. É um clássico, adorável de você ouvir e tudo, mas não tem nada a ver com a gente. Tem a ver com aquela época, com aquela coisa, tem a ver com a gente na medida em que a gente gosta de ouvir. Fazer é uma outra coisa. Acho que o pessoal da música eletroacústica às vezes fica muito… como é uma coisa assim muito ligada aos meios acadêmicos, talvez só aos meios acadêmicos, existe essa preocupação de dar satisfação ao outro: “porque eu estou fazendo isso, porque o Schaeffer fez, porque não sei quem fez…” Acho que tem muito essa preocupação de ficar preservando, de querer provar que sabe aquela linguagem, que você é daquela tribo, e falta alçar vôo. As pessoas tem que alçar vôo… faz! vai, faz o que você acha que tem que fazer! Você já tem o conhecimento. Já tá dentro de você, não precisa provar pra ninguém que você tem esse conhecimento. Agora, pensar em repetir menos o que já foi feito. Claro, prestar atenção, porque isso não é uma coisa fácil de fazer. É ótimo você analisar as peças que deram certo, os compositores que são realmente bons, mas não tentar imitar ou partir praquelas mesmas situações, porque a música é criação. É criação, e se você não souber o que você pretende, e não fizer algo seu e diferente, não vai pra frente. Mas tenho muita esperança que ela vá, porque vejo que entre os jovens que estão fazendo música eletroacústica tem muita gente boa, que tem essa preocupação com o novo. Hoje o mundo é muito diferente do que era na década de 50 do século passado. É outra coisa, outra situação, outra difusão. Então, aproveita os meios que estão se oferecendo. Acho a internet uma coisa fantástica, acho muito bom tudo o que está acontecendo e vamos aproveitar essa época tão rica em tecnologia. Tudo tem seus prós e seus contras. Claro que isso também tem um monte de problemas.

    Sobretudo, uma coisa que me preocupa muito é: como que a gente vai guardar essas obras, pro futuro. Porque os suportes vão mudando com uma rapidez enorme! Eu vejo como já consegui perder algumas obras, porque foram feitas em fita e a fita não foi copiada logo, digitalizada, e hoje em dia não tem mais como recuperar. Isso, acho uma questão que merece realmente muito estudo e muito cuidado: como preservar essas obras para o futuro? E não digo nem um futuro longo… um futuro próximo! … com essa corrida da tecnologia! Aliás, já existem congressos dedicados a isso, todo ano.

     

    DANIELMuito obrigado, Vania, mesmo. A gente poderia ficar horas aqui, que sei que você tem muitas coisas legais pra contar

    Eu quem agradeço poder participar dessa revista, que, realmente, estou com ela aqui na mão, e é linda! (risos) Como o nome, tá muito bonita… e o conteúdo também é muito bonito. Parabéns a vocês, que estão nessa empreitada!

     

    Estúdio de Leo Kupper, Bruxelas, em 1985.

    Estúdio de Leo Kupper, Bruxelas, em 1985.

     

    Para saber mais:

    Outra obra realizada com materiais compostos no estúdio do Leo Kupper, Piano Memory, música mista, para tape e piano.

    https://myspace.com/vaniadantasleite/video/piano-memory/63477603

     

    Memórias Abstratas e Abstraídas, dedicada ao ABSTRAI Ensemble (RJ), composta por encomenda da Funarte para a Bienal 2013.

    https://soundcloud.com/abstraiensemble

     

    A compositora deve inaugurar em breve um site disponibilizando gravações, partituras, músicas-vídeo, textos, etc.

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