Onde estão elas, as compositoras? (revisitado)

0 Posted by - 27/10/2014 - julia teles

  • Dia 18 de maio, em meu primeiro artigo para a linda (no caso, linda-i), escrevi sobre como é ser uma compositora em um meio artístico tão predominantemente masculino. Hoje, alguns meses depois, reposto o texto na íntegra (pela primeira vez aqui no site), incluindo alguns comentários ao final da postagem.

    Experimental woman, por Bárbara Scarambone

    Experimental woman, por Bárbara Scarambone


    Nos dias de hoje, pode parecer retrógrado ou desnecessário discutir o papel das mulheres na criação musical/experimentação sonora, isso porque em muitas outras áreas artísticas a quantidade de mulheres criadoras já é maior e vista com mais naturalidade. O que ocorre é que ainda há uma ideia, um senso-comum, de que homens compõem/desenvolvem música e tecnologia, gostando de experimentar técnicas e equipamentos, enquanto as mulheres no máximo usam essas tecnologias, reproduzindo o que foi desenvolvido por eles. Na área mais técnica de áudio (quem trabalha diretamente em P.A., monitor, estúdios, etc) ocorre uma grande discriminação e muitas mulheres técnicas que eu conheço já me contaram histórias absurdas de homens que as tratam como se elas não soubessem nem subir um fader ou girar um knob. Às vezes, homens que sabem muito menos de áudio do que elas chegam para compartilhar um trabalho e só o que fazem é tentar boicotar seu som, isso tudo enquanto fingem saber tudo e mais um pouco. Talvez se sintam ofendidos por saberem menos que garotas.

    Desde que comecei a estudar música, percebi que o que aprendemos como história ou tradição da música ocidental é, basicamente, a história da música feita por homens. Muito raramente, mesmo quando falamos de música do século XX, falamos de mulheres atuando na criação musical. Isso sempre me fez pensar que não haviam mulheres compondo música e experimentando (para desmentir isso, clique aqui). Já na faculdade, por algum tempo fui a única garota da classe de composição instrumental. Entrei no estúdio de eletroacústica em 2010 e me formei em 2012, sendo a primeira mulher a se formar no estúdio em seus 20 anos de existência. Como o grupo era formado somente por homens, sempre que eu chegava na roda de conversa em algum momento alguém falava: “cuidado com as palavras, tem uma menina na sala” ou algo parecido. Era engraçada essa tentativa de me ‘proteger’ dos palavrões ou dos comentários deles, pois não é porque somos meninas que não podemos ouvir e falar besteira. Isso me lembra aquele padrão bobo da menina frágil, delicada, pura. Como se não pudéssemos assumir esse lado mais concreto da vida, fazer outras coisas, ruídos, coisas nojentas, por que não? Pouquíssimas vezes cheguei nos ensaios e montagens de concerto e não fui lembrada de que era um ser estranho naquele ambiente.

    Obviamente, ninguém nunca chegou para mim e disse: “você não pode fazer música interessante porque você é mulher”. Mas o que acontece é que vamos inconscientemente acumulando essas informações, vindas de diversas fontes, de que aquilo não é para nós e, já que não temos outras referências, vamos achando esse pensamento natural. Vamos interiorizando a ideia de que somos um ser estranho, e quando vemos, nós mesmas pensamos que não deveríamos estar fazendo aquilo, que não somos capazes. Por muitos anos, fiquei travada para compor, era um trabalho muito difícil ter voz.

    Três livros que eu recomendo para mulheres que estejam passando por isso: O Existencialismo é um Humanismo (Jean-Paul Sartre), Profissões para mulheres e outros artigos feministas (Virgínia Woolf) e Pink Noises (Tara Rodgers). O primeiro mostra que as coisas dependem muito das atitudes e decisões que nós tomamos; é um livro que incita à ação e mostra que as coisas são simples nesse sentido (quando não esperamos salvação divina ou do destino). Aliás, esse primeiro serve para qualquer pessoa em crise. Os artigos da Virgínia Woolf mostram ela e outras autoras ganhando espaço na literatura, dando respostas a artigos e comentários machistas, debatendo a questão. Mostram que essa luta das mulheres para adentrar os meios artísticos é longa. Já o Pink Noises apresenta entrevistas incríveis com musicistas e artistas sonoras com as mais diversas trajetórias e ideias, mostrando que existem, sim, muitas mulheres produzindo música e tecnologia e se destacando nisso. Me impressionei muito mesmo com as mulheres apresentadas pelo Pink Noises. Fico pensando: como essas informações não chegaram a mim antes? Destaque para a Carla Scaletti, uma das desenvolvedoras do Kyma, Pauline Oliveros (que atua desde os anos 50) e Eliane Radigue (que trabalhou como assistente do Pierre Henry, mas foi dissidente da estética da música concreta).

    Tenho conhecido mais mulheres que trabalham com som, participo de um grupo de estudos que se organiza pelo facebook chamado ‘Female Audio Pro Brasil’. Lá trocamos vários links, informações sobre softwares, marcamos estudos e aulas práticas em estúdios. É um grupo muito ativo e interessante. Encontrei também vários sites/grupos de mulheres compositoras, acervos, links, o que mostra que há um grande movimento no sentido de mostrar essas músicas feitas por elas e militar pela igualdade de circulação desse material.

    Também tenho conhecido mais compositoras e mulheres interessadas em experimentar com áudio e tecnologia aqui no Brasil. Fora da universidade, existe um ambiente muito mais encorajador e inclusivo.

    É o que sinto.

    Fiquem com os links e divirtam-se (todos os textos estão em inglês):

    Her noise – Arquivo de obras, vídeos, documentário, áudios.

    When she codes, the revolution’s coming – Artigo sobre feminismo e programação

    EKHOFEMALE – Informações bem diversas sobre o tema, com videos e infos sobre compositoras

    Girls on synth, girls on synth… – Algumas compositoras e link para seus websites

    Sound Girls – Espaço de apoio para mulheres que trabalham com áudio, possibilitando troca de contatos, informações e técnicas. Reúne vídeos, artigos, etc.

    NerdGirls –  Mashup – história da música eletroacústica feita por mulheres, realizada por Antye Greie-Ripatti (AGF)

    Women and Music – Artigos sobre gênero e música

    Tara Rodgers – Site da criadora do Pink Noises, Tara Rodgers

    Lista completa de entrevistadas do livro Pink Noises, para quem quiser pesquisar: Maria Chavez, Beth Coleman (M. Singe), Antye Greie (AGF), Jeannie Hopper, Bevin Kelley (Blevin Blectum), Christina Kubisch, Le Tigre, Annea Lockwood, Giulia Loli (DJ Mutamassik), Rekha Malhotra (DJ Rekha), Riz Maslen (Neotropic), Kaffe Matthews, Susan Morabito, Ikue Mori, Pauline Oliveros, Pamela Z, Chantal Passamonte (Mira Calix), Maggi Payne, Eliane Radigue, Jessica Rylan, Carla Scaletti, Laetitia Sonami, Bev Stanton (Arthur Loves Plastic), Keiko Uenishi (o.blaat)


    Passados 5 meses desde que escrevi o artigo, eu quis revisitá-lo, para ver se poderia acrescentar algo além de disponibilizá-lo na linda semanal.

    Desde maio tive a chance de conhecer mais compositoras e trocar algumas figurinhas sobre o assunto, e por isso a minha sensação de que somos poucas e de que a composição experimental é dominada por homens mudou bastante (apesar de, em porcentagem, ainda sermos minoria). Muitas disseram ter sentido e passado por coisas parecidas. Conheci inclusive muitas compositoras que não moram em São Paulo. O legal disso tudo é perceber como eu estava errada em achar que éramos poucas e, ao mesmo tempo, como eu estava certa em escrever sobre isso e poder, assim, conhecer outras compositoras e fazer essas novas conexões.

    Por isso, a vontade de fazer com que essas compositoras se conheçam é ainda maior; e, ainda, a vontade de chegar às estudantes e às garotas interessadas em música e em tecnologia e dar referências de mulheres trabalhando na área. Somente isso já creio que as ajudaria um pouco a entender que SIM, há espaço para nós, e nós estamos aqui, ocupando-o. Não abriremos mão.

    Creio que é importante uma certa militância (de quem se identificar com a causa) de abrir discussões como essa sobre gênero, falar sobre o assunto. Levar o tema às universidades, escolas. Não somente no nosso meio da música experimental, mas em outros meios artísticos e outras áreas de trabalho também, pois assim a questão deixa de ser individual e passa a ser discutida em grupo, possibilitando assim um maior amparo e compreensão das questões. Às vezes algum tema que nos parece pessoal pode ser, na verdade, mais universal do que pensamos.

    Complemento agora com outros links interessantes que encontrei sobre o assunto, depois da publicação original. E quero também dizer que, caso outras compositoras/artistas sonoras estejam lendo isso e queiram fazer contato para próximos projetos ou conversas, me enviem um e-mail (juliatelesb@gmail.com) ou deixem um comentário!

    ***
    Links (infelizmente a maioria está disponível somente em inglês):

    Feminist Frequency – Sobre sexismo na cultura pop e nos games

    Muff Wiffler: Sexism in Audio Culture – Artigo da Bluestockings Magazine (publicação feminista) sobre sexismo no audio

    female:pressure – Rede de contatos, links e eventos sobre gênero, música eletrônica, DJs, artes visuais.

    Electronic Ladyland – Playlist de música eletrônica feita por mulheres

    Rediscovering the Electronic Music Godmothers – Artigo do NY Times sobre mulheres pioneiras na música eletrônica

    Daphne Oram Remembered – The Guardian – Artigo sobre Daphne Oram, compositora inglesa pioneira na música eletrônica

    Fear of Failure – Artigo de uma designer sobre o medo de errar e sua experiência na universidade

    Kapralova women in music – Links e sites de compositoras, artigos, bases de dados, organizações

    Flower Electronics – Para comprar sintetizadores feitos por Jessica Rylan

    Continue lendo!

    1 Comment

  • Washington 05/06/2015 - 23:29 Reply

    Olá Júlia, tudo bem?
    Sei que no universo da música de concerto há poucas mulheres conhecidas. Na música popular essa é uma questão que procuro entender.
    Porque há tão poucas mulheres compositoras?
    Há muitas cantoras, mas a grande maioria é intérprete. Dentre os homens é o contrário. Poucos cantores são apenas intérpretes.
    Qual será a razão disso?

  • Leave a reply

    Full Screen Popup Powered By : XYZScripts.com